29 de jun de 2015

Sabonete

por Ana Cláudia Gonçalves

        Uma das sensações mais desconfortáveis desse mundo deve ser a de usar banheiros públicos, principalmente sendo mulher. Você não pode simplesmente sentar naquele local destinado a dejetos de desconhecidos, sobre o qual você não tem a mínima ideia de quais são os procedimentos de limpeza, sem a certeza de que não vai pegar uma doença daquelas constrangedoras que te fazem querer coçar seu órgão sexual na frente de tudo e todos. Você não pode também ficar em pé ou tentar mirar, afinal não tem o menor controle sobre seu xixi. A solução é, então, ficar em uma posição de desconforto máximo onde você flexiona suas pernas até estar “semi-agachada” e ainda fazer uma força descomunal para que tal proeza seja possível.
        “Ah não, mas você pode simplesmente pegar bastante papel e forrar o vaso e pronto”. Tá, isso se você lembrar de pegar o bendito do papel higiênico que, não sei de quem que foi essa brilhante ideia, fica do lado de fora do box. Apertada por meia hora ou mais, sequer lembrar de pegar um pouco de papel para se enxugar depois já é um feito que exige treino e autocontrole.
        Pois bem, como se não bastasse, quando saio do banheiro, surpresa, não tem sabão. Eu era nova na universidade, então, pensei comigo “Deve ser algo temporário, hoje não tem sabão. As vezes acaba não é mesmo? ” Não. Eu não poderia estar mais errada. Sabonete ali era coisa mais rara do mundo. Aliás nunca vi. Já era até tópico comum de conversa de banheiro, daquelas que você puxa com a pessoa do seu lado meio que para se justificar do porquê está lavando as mãos apenas com água. É um papo semelhante ao de elevador sabe? Daqueles que você puxa simplesmente porquê o silencio se torna constrangedor. Parece que aquela musiquinha irritante te deixa automaticamente sem graça e na necessidade de dizer algo. Mas o fato é, um dia me cansei daquela situação e me rebelei. Resolvi que passaria a levar meu próprio sabonete.
        Preparei tudo no dia anterior, coloquei até uma toalhinha na nécessaire para, além de agora limpinha, ser também ecológica. Cheguei no banheiro de manhã e a primeira coisa que fiz foi por minha nécessaire em cima da pia e retirar toda contente meu sabão. Lavei as mãos e sai correndo, pois já devia estar alguns minutos atrasada para aula. De repente veio. Aquela vontade louca de ir ao banheiro. Faltava ainda uma meia hora para minha aula acabar e eu tinha bebido uma garrafinha inteira de água. O professor estava falando coisas bem importantes, dessas que caem em provas. Eu não queria sair e perder algo. Eu conseguia segurar, tinha de conseguir. Os minutos se arrastavam e a vontade só crescia. Já estava desesperada quando fomos finalmente liberados. Não pensei duas vezes e sai correndo para o banheiro.
        Entrei de uma vez no box, abaixei as calças e segurei no vaso. Assim que encostei a mão na porcelana fria senti. Aquela sensação de encostar em algo molhado que nesse contexto só pode significar uma coisa. É nessa hora que me subiu pela espinha uma sensação horrível e me deixou gelada. Era xixi. Alguém tinha errado o ângulo. Sai do box disfarçando meu visível desconforto e fui direto em direção a minha mochila a procura do sabonete. Meu deus, cadê minha nécessaire? Nem ela nem o sabão estavam mais em minha mochila. Foi quando levantei meus olhos para a pia e a vi ali, no mesmo canto que a havia posto no início da manhã. Ela estava aberta, escancarada. Levaram minhas maquiagens, delineador, batom, tudo que eu mais gostava. Mas o mais importante e desesperador foi que não tiveram nem a consideração de me furtar somente isso. Levaram também meu sabonete.

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