10 de jun de 2015

Indústria médica e farmacêutica: uma indústria como outra qualquer?



Por Carolina Nascimento

Sábado, 3h45 da manhã. Entorpecida com sintomas da gripe, vejo-me sentada em um dos frios bancos de um hospital particular. É preciso ter uma credencial para estar ali, afinal não é qualquer um que pode circular por tão seleto ambiente. Assim, mostro minha carteirinha do plano de saúde e logo a atendente me direciona para a distribuição de pulseirinhas VIP. Ganhei a verde. Urgência relativa. Talvez eu não seja tão VIP assim.
Depois de tirar minha pressão e de um breve desconfortável papo-de-elevador sou encaminhada para o balcão de atendimento. Difícil entrar nessa festa. Apresento mais uma vez minha credencial, agora com minha identidade. Papelada. Burocracia. Sento-me de novo e aguardo o médico. Alguns minutos depois sou chamada e quando vejo já estou medicada com uma agulha na veia. (Open bar?).
Saio do hospital, me dirijo a farmácia e gasto 15% do meu salário em três caixas com 8 comprimidos que me farão sentir melhor. Nem leio a bula, seria esgotar mais ainda meu cérebro com aqueles palavrões que nem sei pronunciar. Tomo o remédio, mas não consigo deixar de sentir um desconforto generalizado. Talvez possa ser o ar condicionado gelado do hospital, o cheiro de álcool em gel e borracha, a constante limpeza do ambiente ou a frieza dos cuidadores. Mas uma coisa é certa, a assepsia encontrada em hospitais não só previne o contágio do paciente com a bactéria, mas também o contato do paciente leigo com a indústria médica e farmacêutica.
O que é realizado dentro de uma comunidade científica é meticulosamente analisado antes de ser apresentado ao grande público. A grande caixa-preta da medicina – fechada e intocável - nos faz levantar muitas questões: em um mundo tão moderno e acelerado, como ainda não temos cura para doenças quase centenárias como AIDS e câncer? Porque o ebola matou primeiramente milhares na África, mas só quando chegou aos EUA que se investiu em pesquisas para buscar uma cura? Quem define e hierarquiza os objetos de estudo dos cientistas? A sociedade não deveria interferir, demandando pesquisas?
Em 2007, o periódico La Vanguardia publicou uma entrevista [1] com o Nobel de medicina Richard J. Roberts com afirmações muito graves contra a indústria farmacêutica. Roberts denuncia o bloqueio dos medicamentos que curam e o desvio das pesquisas para que não se chegue a nenhuma resposta, pois curar não gera lucro. Sete anos depois, o Nobel voltou à [2] mídia afirmando que haviam deturpado suas palavras e que não era isso que ele teria dito. Dito ou não, o periódico levantou questões muito válidas que continuam passeando em meu imaginário, principalmente quando espirro.



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