30 de jun de 2015

Quais são suas prioridades?

Por Vivi Morais

Tudo parece muito valioso quando você é novo. Seus bens materiais, seu trabalho, sua aparência, suas palavras e sentimentos - e a exposição deles.
Tudo tem uma importância decisiva e parece que toda e qualquer decisão vai mudar o resto da sua vida como se você fosse ser jovem para sempre e como se todo aquele valor não fosse mudar. Como se as pessoas fossem ficar lá para sempre também - elas podem até ficar “para sempre” mas como cantou Renato Russo “o pra sempre sempre acaba”. Nem que seja com a morte.
Independente do campo profissional, passamos a vida buscando notoriedade, amores infinitos ou ao menos um trabalho que nos dê uma futura estabilidade financeira. Procuramos atingir metas pontuais e para chegar lá abusamos da coitada da nossa saúde - mas aí já é tópico para outro texto.

Nos espelhamos em pessoas de vinte e muitos anos, queremos alcançar os objetivos de pessoas de trinta e poucos anos. 
Mas quantas daquelas figuras nas quais você se espelha estão vivas pra você? Existem aquelas pessoas as quais suas imagens foram congeladas em certa idade - ou pela morte ou pelo tempo mesmo. Seja Chico Buarque, seja Brigitte Bardot. Pessoas que foram endeusadas em certo período de suas vidas mas que, como todo mundo, envelheceram.

Fonte: Pinterest

Mas como é que a gente vai lembrar disso se a todo momento somos bombardeados com prevenções e métodos "antienvelhecimento" como se envelhecer fosse uma doença. Infinitas formas de fugir do corpo que uma hora ou outra vai ceder.
Temos de concordar que não é muito justa a imagem que nos passam dos setenta anos de idade. Congelam-se os corpos, as palavras e até os desejos sexuais dos mais velhos. 
Mas sabe de uma coisa? Você muito provavelmente vai chegar lá. Porque na vida se não é passageiro é o fim. Se você não está morto, você está envelhecendo.
A pele flácida, a aposentadoria, os sentidos cedendo.
Pessoas indo, vindo, mudando, morrendo, nascendo.

Tudo isso é tão natural e lindo quanto o movimento da Terra.
E o que são as prioridades?
Talvez sejam aquelas coisas que você deseja que durem por mais tempo.
Talvez sejam as coisas que você acredita que vão te fazer durar por mais tempo.


29 de jun de 2015

Sabonete

por Ana Cláudia Gonçalves

        Uma das sensações mais desconfortáveis desse mundo deve ser a de usar banheiros públicos, principalmente sendo mulher. Você não pode simplesmente sentar naquele local destinado a dejetos de desconhecidos, sobre o qual você não tem a mínima ideia de quais são os procedimentos de limpeza, sem a certeza de que não vai pegar uma doença daquelas constrangedoras que te fazem querer coçar seu órgão sexual na frente de tudo e todos. Você não pode também ficar em pé ou tentar mirar, afinal não tem o menor controle sobre seu xixi. A solução é, então, ficar em uma posição de desconforto máximo onde você flexiona suas pernas até estar “semi-agachada” e ainda fazer uma força descomunal para que tal proeza seja possível.
        “Ah não, mas você pode simplesmente pegar bastante papel e forrar o vaso e pronto”. Tá, isso se você lembrar de pegar o bendito do papel higiênico que, não sei de quem que foi essa brilhante ideia, fica do lado de fora do box. Apertada por meia hora ou mais, sequer lembrar de pegar um pouco de papel para se enxugar depois já é um feito que exige treino e autocontrole.
        Pois bem, como se não bastasse, quando saio do banheiro, surpresa, não tem sabão. Eu era nova na universidade, então, pensei comigo “Deve ser algo temporário, hoje não tem sabão. As vezes acaba não é mesmo? ” Não. Eu não poderia estar mais errada. Sabonete ali era coisa mais rara do mundo. Aliás nunca vi. Já era até tópico comum de conversa de banheiro, daquelas que você puxa com a pessoa do seu lado meio que para se justificar do porquê está lavando as mãos apenas com água. É um papo semelhante ao de elevador sabe? Daqueles que você puxa simplesmente porquê o silencio se torna constrangedor. Parece que aquela musiquinha irritante te deixa automaticamente sem graça e na necessidade de dizer algo. Mas o fato é, um dia me cansei daquela situação e me rebelei. Resolvi que passaria a levar meu próprio sabonete.
        Preparei tudo no dia anterior, coloquei até uma toalhinha na nécessaire para, além de agora limpinha, ser também ecológica. Cheguei no banheiro de manhã e a primeira coisa que fiz foi por minha nécessaire em cima da pia e retirar toda contente meu sabão. Lavei as mãos e sai correndo, pois já devia estar alguns minutos atrasada para aula. De repente veio. Aquela vontade louca de ir ao banheiro. Faltava ainda uma meia hora para minha aula acabar e eu tinha bebido uma garrafinha inteira de água. O professor estava falando coisas bem importantes, dessas que caem em provas. Eu não queria sair e perder algo. Eu conseguia segurar, tinha de conseguir. Os minutos se arrastavam e a vontade só crescia. Já estava desesperada quando fomos finalmente liberados. Não pensei duas vezes e sai correndo para o banheiro.
        Entrei de uma vez no box, abaixei as calças e segurei no vaso. Assim que encostei a mão na porcelana fria senti. Aquela sensação de encostar em algo molhado que nesse contexto só pode significar uma coisa. É nessa hora que me subiu pela espinha uma sensação horrível e me deixou gelada. Era xixi. Alguém tinha errado o ângulo. Sai do box disfarçando meu visível desconforto e fui direto em direção a minha mochila a procura do sabonete. Meu deus, cadê minha nécessaire? Nem ela nem o sabão estavam mais em minha mochila. Foi quando levantei meus olhos para a pia e a vi ali, no mesmo canto que a havia posto no início da manhã. Ela estava aberta, escancarada. Levaram minhas maquiagens, delineador, batom, tudo que eu mais gostava. Mas o mais importante e desesperador foi que não tiveram nem a consideração de me furtar somente isso. Levaram também meu sabonete.

17 de jun de 2015

Meios de Comunicação auxiliam no Combate ao Tabagismo

No final do mês de maio, o SBT (Sistema Brasileiro de Televisão) lançou a campanha “Advertências impossíveis de ignorar”, que tem como objetivo diminuir o uso do cigarro no Brasil. A agência de Publicidade responsável pela campanha é a Publicis Brasil. A principal aposta da ideia é um hotsite em que a pessoa cria sua própria advertência para pôr no maço de cigarro de quem ela quer que pare de fumar. O início da veiculação da iniciativa coincide com o Dia Mundial Sem Tabaco, 31 de maio. 

Fonte: http://www.sbt.com.br/semtabaco/ 

Dados do Vigitel (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico), do ano de 2013, mostram que o número de fumantes no Brasil caiu para 11,3%. Para se ter uma ideia, em 1989, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostrou que o número de fumantes em território nacional era de 34,8% da população. 

Um estudo divulgado em 2013, no Relatório Semanal sobre Morbidade e Mortalidade, chamado Antismoking Messages and Intention to Quit - 17 Countries, 2008–2011 (em tradução livre: Mensagens antitabagismo e intenção de parar – 17 países, 2008 -2011) mostra a eficácia de quatro meios de comunicação (televisão, rádio, letreiros, jornais ou revistas) em campanhas contra essa droga.
 Como o título já sugere, a pesquisa foi feita a partir de dados dos 17 países que fazem parte do GATS (Global Adult Tobacco Survey). O GATS é ligado a OMS (Organização Mundial da Saúde) e faz levantamentos levantamento de dados acerca do uso do tabaco entre adultos. O Brasil é o único membro da América do Sul que faz da pesquisa.
No levantamento foi constatado que a porcentagem de fumantes no Brasil é de 16,9 %. Do total de usuários do cigarro 18,7 % afirmam que pretendem largar o hábito. Não obstante, a pesquisa apurou o número de fumantes que noticiaram informações antifumo nos últimos 30 dias: 45,3 % na televisão, 16,8% no rádio, 22,6% em letreiros,  12,8% em jornais ou revistas e 55,1 % em qualquer um dos quatro meios mencionados anteriormente. Ademais, 90,7%  dos fumantes afirmam terem visto alguma advertência em rótulos de cigarros, e 54,9%  dizem terem visto marketing pró-tabaco. 

É inegável que os meio de comunicação de massa, principalmente os que têm um forte apelo visual e emotivo, exercem um papel fundamental nas campanhas antitabagismo. Conquanto, deve-se ressaltar outras formas de combate ao tabagismo, tais como: a lei antifumo regulamentada em 2014 e o uso obrigatório de advertências em maços de cigarro em 2002.

Referência Bibliográfica

http://www.cdc.gov/mmwr/preview/mmwrhtml/mm6221a2.htm?s_cid=mm6221a2_w


10 de jun de 2015

Indústria médica e farmacêutica: uma indústria como outra qualquer?



Por Carolina Nascimento

Sábado, 3h45 da manhã. Entorpecida com sintomas da gripe, vejo-me sentada em um dos frios bancos de um hospital particular. É preciso ter uma credencial para estar ali, afinal não é qualquer um que pode circular por tão seleto ambiente. Assim, mostro minha carteirinha do plano de saúde e logo a atendente me direciona para a distribuição de pulseirinhas VIP. Ganhei a verde. Urgência relativa. Talvez eu não seja tão VIP assim.
Depois de tirar minha pressão e de um breve desconfortável papo-de-elevador sou encaminhada para o balcão de atendimento. Difícil entrar nessa festa. Apresento mais uma vez minha credencial, agora com minha identidade. Papelada. Burocracia. Sento-me de novo e aguardo o médico. Alguns minutos depois sou chamada e quando vejo já estou medicada com uma agulha na veia. (Open bar?).
Saio do hospital, me dirijo a farmácia e gasto 15% do meu salário em três caixas com 8 comprimidos que me farão sentir melhor. Nem leio a bula, seria esgotar mais ainda meu cérebro com aqueles palavrões que nem sei pronunciar. Tomo o remédio, mas não consigo deixar de sentir um desconforto generalizado. Talvez possa ser o ar condicionado gelado do hospital, o cheiro de álcool em gel e borracha, a constante limpeza do ambiente ou a frieza dos cuidadores. Mas uma coisa é certa, a assepsia encontrada em hospitais não só previne o contágio do paciente com a bactéria, mas também o contato do paciente leigo com a indústria médica e farmacêutica.
O que é realizado dentro de uma comunidade científica é meticulosamente analisado antes de ser apresentado ao grande público. A grande caixa-preta da medicina – fechada e intocável - nos faz levantar muitas questões: em um mundo tão moderno e acelerado, como ainda não temos cura para doenças quase centenárias como AIDS e câncer? Porque o ebola matou primeiramente milhares na África, mas só quando chegou aos EUA que se investiu em pesquisas para buscar uma cura? Quem define e hierarquiza os objetos de estudo dos cientistas? A sociedade não deveria interferir, demandando pesquisas?
Em 2007, o periódico La Vanguardia publicou uma entrevista [1] com o Nobel de medicina Richard J. Roberts com afirmações muito graves contra a indústria farmacêutica. Roberts denuncia o bloqueio dos medicamentos que curam e o desvio das pesquisas para que não se chegue a nenhuma resposta, pois curar não gera lucro. Sete anos depois, o Nobel voltou à [2] mídia afirmando que haviam deturpado suas palavras e que não era isso que ele teria dito. Dito ou não, o periódico levantou questões muito válidas que continuam passeando em meu imaginário, principalmente quando espirro.



6 de jun de 2015

Mutilação genital feminina é proibida na Nigéria e reflexões

Por Thaís Rosa

NIGÉRIA - Na última semana de sua presidência, Goodluck Jonathan aprovou uma lei que proíbe a mutilação genital feminina. Essa prática costuma ser feita até os 15 anos da mulher, e trata-se da remoção parcial ou total da genitália feminina com o intuito de impedir que a mulher sinta prazer. Muitas vezes essa atividade é feita com facas, tesouras, lâminas e até cacos de vidro, em situações de higiene precária e sem anestesia.
A questão tem sido debatida há anos, contando com a defesa de ativistas e defensores dos direitos humanos que pressionavam o governo para aprovação de uma lei dessa espécie. Segundo o All Africa, portal eletrônico de notícias predominantemente africanas, a esperança é de que a lei faça com que os nigerianos compreendam que “práticas culturais e religiosas também devem se sujeitar aos direitos humanos”. A lei também proíbe o abandono de mulher, filhos e outros dependentes que não tenham condições de se sustentar sozinhos.


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Em alguns meses a Lei das Cotas completa 3 anos, porém não há calouros pretos em 6 dos 10 cursos mais concorridos da Fuvest 2015.
Em abril de 2014 a Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo publicou uma nota em defesa da dignidade, da cidadania e da segurança dos homossexuais, mas pouco mais de um ano depois o principal auxiliar do papa disse que a aprovação do casamento gay na Irlanda “não foi uma derrota para os princípios cristãos, foi uma derrota para a humanidade”.
As mulheres estão legalmente em pé de igualdade com os homens, inclusive no quesito profissional, mas ainda recebem aproximadamente 30% menos para desempenhar as mesmas funções.
Uma lei que proíbe a mutilação genital feminina foi aprovada na Nigéria, mas ainda há 26 nações só na África onde esse tipo de prática é legal.


Muitas conquistas foram feitas na nossa sociedade, mas ainda estamos distantes da igualdade, da justiça, do verdadeiro respeito.
E será que um dia não estaremos?
Não sei.
O que sei é que ainda não é o tempo de se calar.




26 de mai de 2015

Atrás da tela de um computador: quem somos?

Por Ana Cláudia Gonçalves 


Homem é acusado de pedofilia por tirar selfie perto de crianças e, logo depois de confirmado o engano, acusadora é perseguida nas redes sociais.
               


                Vivemos hoje o que se pode chamar da era da autopromoção. Por de trás das telas de nossos computadores achamos que estamos completamente seguros e isso é extremamente perigoso. Temos essa impressão errada de que agora podemos falar tudo que nos vier a cabeça. Não nos preocupamos com as consequências de nossas palavras, pois não podemos ver a reação do outro. Tornamo-nos repórteres de nós mesmos, fazendo matérias e fotos constantemente da nossa imagem como se fossemos celebridades da maior importância e distribuímos xingamentos e discursos de ódio a quem quiser ouvir.
FOTO: REPRODUÇÃO/FACEBOOK

O caso ocorrido na Austrália semana passada exemplifica bem isso. Um homem que andava pelo shopping de Melbourne, na Austrália, passou por um cartaz em uma loja de brinquedos que comemorava o conhecido Dia do Star Wars, 4 de maio. Por ser fã da série, assim como seus filhos, o homem decidiu tirar uma famosa selfie com o pôster para mandar para seus filhos. Pediu, então, licença as crianças que se encontravam ali, tirou a foto e saiu. Uma atitude bem normal, nada de extraordinário.

           A mãe de uma das crianças que estava próxima ao local, contudo, viu a cena e a interpretou como um ato de pedofilia do homem, assumindo que ele tirava uma foto das crianças e não do cartaz. A mulher fotografou o homem no local e postou em seu perfil no facebook chamando-o de creep, expressão que denota pessoa esquisita e, geralmente, de mau caráter. Logo a imagem se tornou viral, com mais de 20 mil compartilhamentos.


A foto tirada pela mãe. FOTO: REPRODUÇÃO/FACEBOOK


O homem apenas se deu conta do que estava ocorrendo quando recebeu ligações de parentes pedindo para tomar cuidado ao sair do trabalho, pois ele já havia recebido diversas ameaças via redes sociais. Desconcertado, o homem resolveu recorrer a imprensa para contar seu lado da história e tentar recuperar o pouco de sua imagem que tinha restado. Imediatamente, a internet mudou de lado.
A mulher, que antes era acusadora e ao mesmo tempo vítima, passou a ser vista como inconsequente e agora era taxada de caluniadora.  Recebeu diversas ameaças, até mesmo de morte pela internet. Desculpou-se e lamentou todo o transtorno causado ao homem e sua família, mas isso não retratou sua imagem. Agora é a mulher e seus filhos que são intimidados diariamente por causa de um mal entendido tão simplório.
A inversão das situações tão rapidamente e o nível que atingiram apenas revelam o ponto absurdo a que chegamos. A internet passou a ser uma máscara para que se possa falar abertamente impropérios e ofensas a todos sem sofrer qualquer consequência. Hoje, as redes sociais se tornaram locais extremamente propícios para a disseminação do racismo, do machismo, da homofobia, do preconceito e do ódio em geral. Não há mais a preocupação com o fato de que existem seres humanos do outro lado da tela.



23 de mai de 2015

Entre abelhas: a diferença entre ver e enxergar

Por Vivi Morais


Fazia tempo que um filme não me fazia pensar tanto. Normalmente, existem aqueles filmes que você vai ver sabendo que carrega uma mensagem mas “Entre abelhas” é quase uma pegadinha, se tenho a permissão de definir assim. Você entra na sala de cinema esperando algo, ou melhor, não esperando coisa alguma e acaba recebendo um clarão na cara que das duas uma: ou vai te estressar e te fazer achar o filme ruim ou vai clarear sua visão de vez.

O filme conta a história de Bruno (Fábio Porchat), recém separado que tem dificuldade em aceitar essa ruptura em sua vida. Enquanto seu melhor amigo Davi (Marcos Veras) tenta reanimar o cara com ações e palavras, no mínimo machistas, Bruno ainda se vê procurando alguma forma de reverter sua separação. E então, do nada, as pessoas começam a desaparecer. Na verdade, Bruno só não consegue mais enxergá-las.
O resto da história vale a ida ao cinema para ser contada por si só mas a reflexão extrapola os limites da tela.




Já pensou quem vai ser a última pessoa lembrada por você antes de morrer? Qual foi a última vez que você perguntou para alguém da sua família se estava tudo bem com interesse na resposta

Na correria da vida e dos nossos próprios problemas, o conjunto de pessoas que realmente são enxergadas por nós são pouquíssimas. Às vezes a gente não enxerga ninguém.
Os casos de pessoas que se suicidam e os conhecidos dizem "Mas ele(a) estava tão normal." demonstram bem isso. Será mesmo que alguém pode chegar ao ponto de se suicidar sem antes ter demonstrado nenhum sinal estranho? Ou isso é porque não havia ninguém que olhasse de verdade para os seus sinais?





Infelizmente, existe também uma falha no percurso que permite que, mesmo que você veja a outra pessoa, não quer dizer que essa relação vai ser mútua. Já te cumprimentaram e você não lembrou de onde conhecia o indivíduo? Nem depois dele tentar te fazer lembrar? É como se a pessoa não tivesse feito parte daquele cenário na sua vida. 

Por isso também, nos agarramos tantos em relacionamentos afetivos monogâmicos que, teoricamente, dão uma estabilidade. Ao mesmo tempo que há a "certeza" de que a pessoa vai estar lá contigo sempre te colocando em primeiro plano, enxergar só uma pessoa e colocá-la como prioridade é mais prático. 
Relacionamentos com esse tipo de base costumam caminhar por rumos abusivos e, quando/se terminados, causam um sofrimento que vai além da perda usual. Dá um medo do esquecimento. Medo de desaparecer.

"Entre abelhas" desperta em cada pessoa um sentimento diferente por deixar em aberto uma questão tão real de um jeito surreal. Deixar-se refletir é necessário mas se render às possibilidades pode ser enlouquecedor. Filme super indicado pra quem não tem medo de repensar as próprias escolhas.



19 de mai de 2015

Internet.org: A neutralidade ou o acesso universal?

De Gabriel Shinohara

O internet.org é um projeto sem fins lucrativos do Facebook em conjunto com outras empresas de tecnologia, que procura prover acesso à internet aos dois terços da população mundial que estão desconectadas, principalmente em países da África, Ásia e América Latina.

O método de inclusão digital envolve parcerias com provedores locais que oferecem seus serviços de forma gratuita, contando com a possibilidade de os usuários buscarem uma assinatura paga em um futuro próximo.

Apesar de aparentemente altruísta e inclusivo, a iniciativa levantou discussões e críticas quanto a seus reais objetivos, já que a pequena capacidade de internet dos provedores apenas garante acesso a sites pré-selecionados, como a Wikipédia, sites de notícia, serviços de saúde e ao Facebook.

Ativistas indianos (país em que o programa já está em funcionamento) quando perguntados pela Organização de Regulação de Telecomunicações local, sobre a questão da neutralidade da rede, se mostraram preocupados. Em um artigo publicado no site hidustantimes.com, o grupo chamado “savetheinternet.in coalition” afirmou que “a internet não é o Facebook” defendendo o direito dos usuários à um espaço livre na rede.

Mesmo defendendo veemente o programa em artigo no mesmo Hisdustan Times, aonde afirmava que a “neutralidade da rede não entra em conflito com o trabalho de conseguir que mais pessoas se conectem”, um dos maiores conglomerados de mídia indiano, a Times Group, se retirou do projeto junto com algumas outras grandes empresas locais.

Um detalhe que não deve ser esquecido: serviços gratuitos de internet normalmente lucram com a venda de espaços publicitários ou com propagandas direcionadas. Para o Facebook, quanto mais usuários, mais dados disponíveis e mais lucro.

Brasil

Em encontro com a presidente Dilma Rousseff na última Cúpula das Américas, no Panamá, Mark Zuckerberg anunciou uma parceria com o governo brasileiro, que pretende levar o projeto internet.org para as regiões que não possuem acesso à rede.

— Estamos aqui para anunciar uma parceria entre o Facebook e o governo brasileiro, no sentido de assegurar que as tecnologias que garantem acesso à internet e aos serviços de internet, educação, saúde, e todos os produtos que a internet pode tornar disponíveis na rede possam ser acessados do Brasil — disse Dilma.

Mesmo após a suada aprovação do Marco Civil da Internet, que garante a neutralidade da rede, a proteção aos dados pessoais e a privacidade, a iniciativa conseguiu apoio governamental. Não é uma decisão fácil, pois o projeto coloca em conflito dois artigos da lei Nº12.965 (do Marco Civil). O artigo 3º que lista os princípios do uso da internet no Brasil, ilustrado abaixo:

Art. 3o  A disciplina do uso da internet no Brasil tem os seguintes princípios:
I - garantia da liberdade de expressão, comunicação e manifestação de pensamento, nos termos da Constituição Federal;
II - proteção da privacidade;
III - proteção dos dados pessoais, na forma da lei;
IV - preservação e garantia da neutralidade de rede;
V - preservação da estabilidade, segurança e funcionalidade da rede, por meio de medidas técnicas compatíveis com os padrões internacionais e pelo estímulo ao uso de boas práticas;
VI - responsabilização dos agentes de acordo com suas atividades, nos termos da lei;
VII - preservação da natureza participativa da rede;
VIII - liberdade dos modelos de negócios promovidos na internet, desde que não conflitem com os demais princípios estabelecidos nesta Lei.

E o artigo 4º, que diz que a internet no Brasil tem como objetivo a promoção do direito de acesso à internet a todos.

Art. 4o A disciplina do uso da internet no Brasil tem por objetivo a promoção:
I - do direito de acesso à internet a todos;
II - do acesso à informação, ao conhecimento e à participação na vida cultural e na condução dos assuntos públicos;
III - da inovação e do fomento à ampla difusão de novas tecnologias e modelos de uso e acesso; e
IV - da adesão a padrões tecnológicos abertos que permitam a comunicação, a acessibilidade e a interoperabilidade entre aplicações e bases de dados.

Esses dois artigos são exemplos práticos do discurso de Mark Zuckerberg e dos ativistas indianos. Enquanto o primeiro defende o acesso universal, mesmo sem os princípios de neutralidade, dizendo: “é melhor ter algum acesso à internet do que nenhum”, o outro afirma que a neutralidade da rede é imprescindível e considera básico o direito à experiência de uma internet livre para os indianos, assim como o CEO do Facebook teve.

Sem dúvida a implantação desse projeto violaria o Marco Civil da Internet, mesmo o reforçando simultaneamente. Grupos como o Proteste e o coletivo Intervozes já manifestaram suas opiniões contrárias ao projeto, afirmando que a neutralidade da rede e a proteção aos dados pessoais entrariam em risco com a sua implantação.

O Comitê Gestor de Internet no Brasil (órgão que propõe normas e procedimentos relativos a internet) já questionou o projeto quanto a suas intenções e espera o anúncio oficial, em Junho, para manifestar sua opinião.

15 de mai de 2015

O meio é a mensagem

    Por Aghata Gontijo
    
    Na terça-feira dessa semana uma jovem morreu ao subir acompanhada de uma amiga no topo de um trem. Anna tinha 18 anos e era romena. A garota faleceu, segundo o jornal Mirror, pois ao se deitar sobre o transporte sua perna entrou em contato com um fio de energia. O choque de 27 mil volts queimou metade de seu corpo e a jovem não resistiu.
    A tragédia tomou um espaço tímido entre algumas matérias curiosas pelo fato de Anna ter feito isso em função de conseguir uma selfie.
    Definida pelo próprio Mirror como “selfie-obsessed teenage girl” (adolescente obcecada por selfies) Anna me fez pensar - confesso que não só por mim, valeu sos  - sobre a matéria além da tragédia. Obviamente essa morte não foi parar em uma página com direito a manchete e tudo mais unicamente por ser uma tragédia.
    O jogo está em uma palavra, e sua importância real bem longe de Anna, ou da sua amiga ou do trem.
    O fato de ter tentando documentar uma ação perigosa para, segundo sua amiga registrar uma “selfie-definitiva” o que quer que isso queira dizer -  pois eu me recuso a reconhecer o caráter mórbido dessa denominação - foi a queda e de certa forma a ascensão de Anna.
    Permita-me esclarecer para que eu mesma não me torne demasiadamente macabra. Subir em um trem com uma amiga e acabar morta por uma fatalidade provável, levando em conta o risco da ação, não teria grande probabilidade - e isso eu digo embasada em minhas aulas sobre valor-notícia e outros miúdos jornalísticos - de aparecer na seção Tecnologias e Games do G1, já que provavelmente o acontecimento nem seria publicado porque a cena em si não é noticia. Duas adolescentes colocam sua vida em risco. Se eu adicionasse até mesmo que ambas o fizeram para mostrar o feito aos amigos, adivinhem: Ainda não.
    Mas a palavra selfie é uma palavra chave para o momento. Ela é o momento.

    Quando as pessoas oferecem seu arroba antes mesmo de oferecer o próprio nome, e lotam uma rede social especializada em fotos de si mesmas, o mundo parece se dividir em idolatria e demonização. Quase como com os profetas, as selfies têm seus fiéis seguidores e seus perseguidores. É uma entidade moderna, com nome, espaço próprio e um valor notícia maior do que o de muitas celebridades por aí, até mesmo que o da famigerada morte.

13 de mai de 2015

O que está acontecendo no Mediterrâneo?


Desde o início do ano de 2015, mais de 1.500 pessoas morreram nas águas do Mediterrâneo. A Organização Internacional para as Migrações (OIM) afirma que o número de mortos no primeiro trimestre de 2015 é 30 vezes maior que o do mesmo período de 2014. Segundo Adrian Edwards, o porta-voz da Agência da ONU para os Refugiados (ACNUR), apenas no mês de abril, foram 1.300 mortos no Mediterrâneo, um recorde trágico.

Notícias relatando naufrágios e mortes no Mediterrâneo já se tornaram comuns. A situação atinge níveis alarmantes, e o número de imigrantes ilegais cresce exponencialmente. Até abril, mais de 57.000 imigrantes chegaram à Europa de forma ilegal, - quase três vezes mais que os 22.500 do primeiro trimestre de 2014 - segundo dados da agência europeia de controle de fronteiras externas (Frontex). Desse número, 10.200 chegaram pelo Mediterrâneo Central - principalmente, a Itália.

Para entender a situação, algumas perguntas devem ser respondidas.

Primeiro: quem são os imigrantes e de onde vêm?

A primeira coisa a pautar, - frequentemente esquecida pelo uso do termo "imigrante" que desumaniza pessoas - é que esses indivíduos possuem histórias pessoais que os levaram a partir em busca de melhores condições de vida.

A Síria é o país de origem mais comum entre esses imigrantes. Com um conflito que já dura quatro anos e que já deixou mais de 200 mil mortos, o país apresenta um deslocamento humano sem precedentes. O segundo país do qual mais pessoas partem em direção à Europa é a Eritreia, um país do nordeste africano cuja situação econômica e política permanece extremamente inquietante para o contexto internacional, além das frequentes violações de direitos humanos. Além desses, países como Afeganistão, Sudão do Sul, República Democrática do Congo, Líbia, e vários outros, também figuram na lista dos países de origem.

Segundo: como se dá a travessia?

As pessoas que desejam migrar ilegalmente para a Europa procuram os traficantes de pessoas para fazerem a travessia do mar Mediterrâneo. O principal ponto de saída é a Líbia, que desde os anos 1980 atrai imigrantes de toda a África, em busca de melhores condições econômicas.

O tráfico de pessoas se tornou extremamente lucrativo. Giampaolo Muschemi, coautor do livro Confessions of a People Smuggler, estima que o tráfico no Mediterrâneo gere entre 300 milhões e 600 milhões de euros por ano. As autoridades líbias não conseguem lidar com o grande número de barcos que saem da costa, raramente parando traficantes. Assim, os barcos vão e voltam livremente, levando cada vez mais imigrantes para as costas europeias.

Terceiro: o que acontece depois da chegada em solo europeu?

A política de asilo da União Europeia foi algo difícil a se harmonizar, considerando que são 28 membros, cada um com sistema próprio. De acordo com o Regulamento de Dublin, a responsabilidade sobre o pedido de asilo recai principalmente sobre o estado-membro que "recebeu" o requerente, ou seja, o primeiro país em que a pessoa "pisou" ao chegar na Europa. Essa regra causa controvérsia, principalmente por reclamações por parte de países como a Grécia, que reclamam que são inundados por pedidos, devido ao fato de eles terem sido o primeiro país europeu em que o imigrante entrou.

O imigrante deve provar que está fugindo de perseguição e que poderia enfrentar perigo ou morte caso voltassem ao seu país de origem. A expulsão em massa não é permitida pelo regulamento da UE. O requerente de asilo tem direito a ser alimentado, receber primeiros socorros e cuidados em um centro de acolhimento.

Segundo a Agence France Presse (AFP), a UE concedeu asilo a 185 mil pessoas em 2014. Desse número, 70.000 são sírios. Esse número, claramente, não é suficiente para lidar com a totalidade do problema. Considerando o grande número de imigrantes que chegam semanalmente ao continente.

Quarto: e as autoridades?

Líderes políticos, em muitos casos, custavam a fornecer mais meios para a melhora da situação afirmando que, assim, estimulariam os traficantes e imigrantes. Claro que não lhes ocorreu pensar sobre as vidas que seriam salvas. No entanto, com o número de mortes crescendo, e as tragédias mais frequentes, as pressões não tardaram a chegar.

Zeid Ra'ad Al Husein, alto comissário da ONU para os direitos humanos, acusa a UE de adotar políticas cínicas em relação à imigração. Zeid afirma estar horrorizado, mas não surpreso com as tragédias. "Estes mortos e as centenas que os precederam nos últimos meses eram previsíveis". O alto comissário afirma, ainda, que as mortes são resultado de um fracasso de governança e uma "imensa falta de compaixão".

O secretário geral da ONU, Ban Ki-Moon afirmou que "o Mediterrâneo se transforma rapidamente em um mar de sofrimento para milhares de imigrantes". O papa Francisco apelou a comunidade internacional a "agir com decisão e rapidez".

Com a pressão sofrida, a União Europeia convocou uma cúpula de chefes de Estado e de Governo para deliberar sobre o assunto.

Entre as medidas adotadas, está a ampliação do orçamento da Operação Tritão, o programa de proteção das fronteiras da UE. A operação Tritão, por si só, já foi alvo de críticas por vir substituir a operação Mare Nostrum, que tinha um escopo mais abrangente no que tange buscas e salvamento. A ampliação do orçamento da operação Tritão é de três milhões de euros por mês para nove milhões de euros.

Outras medidas foram:

  • permissão para destruir barcos dos traficantes de pessoas;
  • processamento dos pedidos de asilo em até dois meses após eles terem sido efetuados;
  • coleta de digitais e cadastramento de todos os imigrantes;
  • um programa voluntário de realocamento de imigrantes;
  • oferta de ajuda para retorno aos países de origem;
  • presença de oficiais de imigração em países-chave;
Além dessas medidas, a chefe da diplomacia da UE, Federica Mogherini, defendeu uma ação militar contra o tráfico de seres humanos pelo Meditarrâneo, e para tanto, busca aprovação no conselho de segurança da ONU.


8 de mai de 2015

Se você conseguiu ler isso, agradeça um professor (ou tire uma 'selfie')



Por Carolina Nascimento

                Na moderna época tecnológica, de rápidas e imprevisíveis mudanças, quem posta a selfie - ou autorretrato - primeiro é rei. Acordou? Selfie. Está fazendo um solzão? Selfie. Vai comer arroz no almoço? Selfie. Foi ao banheiro? Selfie. A vó ficou doente? Selfie. O partido político a que me oponho está na TV? Vídeo de selfie batendo panela bem altão. O professor foi espancado, atacado com bombas de gás lacrimogênio e balas de borracha? Self... Espera, aí não.
                Por mais arbitrário que isso possa parecer, não é. Da mesma forma que a grande mídia em seu oligopólio seleciona e hierarquiza quais e como os acontecimentos serão divulgados, a massa consumidora de tal entretenimento é guiada para o mesmo caminho em total leniência, quase que inconscientemente.
            Para quem já se esqueceu (como disse, estamos na época de efemeridades), no dia 29/04/2015, em ato contra o projeto do governo estadual para mudar a forma de custear a ParanaPrevidencia, mais de 200 professores e manifestantes ficaram feridos após ataque com incessantes bombas de gás lacrimogênio e balas de borracha da polícia militar. Mas nenhum “pau-de-selfie” foi esticado para tirar uma foto com o corpo ferido do professor deitado no asfalto quente.
                Por outro lado, no dia 05/05/2015, o evento “panelaço” contagiou as redes e a grande mídia. Então qual é o mecanismo que explica a veiculação em rede nacional e em horário nobre de vídeos amadores do som estridente de algumas panelas do alto de aquecidos lares e o abafamento do massacre vivenciado pelos professores da rede de ensino público do Paraná?        
                O esforço de tal reflexão me faz conjeturar hipóteses com base em três recentes matérias: [1] o lançamento do mais novo aplicativo iPanelaço, em que o manifestante pode escolher entre 6 diferentes sons de panela e assim não precisa amaçar a caçarola. [2] a iniciativa da revista Veja de criar o seu próprio panelaço virtual; e [3] a empresária paulista lançando sua linha de camisetas pró-impeachment. Bem, continuemos refletindo enquanto esperamos o próximo aplicativo “iProfessor” ser lançado.                                                                 

[3] http://f5.folha.uol.com.br/celebridades/2015/05/1624649-empresaria-que-ficou-nua-em-protesto-lanca-linha-de-camisetas-pro-impeachment.shtml