29 de jun de 2009

Movimentos sociais conectados: o MST e o Exército Zapatista

Os movimentos sociais do século 21 consolidaram suas identidades e afinaram os seus discursos na tentativa de conquistar a opinião pública. Nesse processo, o uso da Internet como instrumento estratégico para comunicação e para organização de suas luta tem sido fundamental.
(28/04/2009)
O protagonismo social e político dos movimentos sociais na América Latina ganhou uma nova forma de expressão com a utilização da Internet como aliada e ferramenta de luta. Dois movimentos sociais fazem uso da rede mundial de computadores como arma estratégica: o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), no Brasil, e o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), no México [1].
Por meio do uso da Internet, esses dois protagonistas disponibilizam informações divulgando a “sua versão” dos fatos e dos objetivos da sua luta, na tentativa de construir novos canais para uma nova sociabilidade [2].
Na construção do discurso dos sites “oficiais” dos dois movimentos foram desenvolvidas e utilizadas uma nova visão e uma nova representação das maneiras dos integrantes desses movimentos sociais lutarem por seus objetivos. Muitas vezes, esses sites – e todo o seu conteúdo – funcionam como principal instrumento de comunicação e como arma estratégica na elaboração das agendas dos movimentos sociais da atualidade. Funcionam ainda como contraponto ao discurso construído pelos meios de comunicação acerca das suas identidades. A construção de novos discursos que geram impactos na sociedade e se transformam em notícia é uma preocupação permanente da maioria dos movimentos sociais da atualidade, pois essa é uma maneira de legitimar suas ações e construir suas identidades.
Além disso, esses dois movimentos passaram a atuar em rede entre si e com outros atores sociais e construíram uma forma de luta, coordenando e conduzindo suas ações com o uso da Internet. Foram capazes de criar novas oportunidades de se apresentar ao mundo, de legitimar as ações, de divulgar as demandas pelas quais lutam, de pressionar os meios de comunicação tradicionais a noticiarem com menos parcialidade fatos ligados a eles e de eles próprios noticiarem fatos ligados às suas lutas.
Uma das características mais fortes do EZLN é a importância que seus membros dão para a opinião pública. Sabendo que as informações transmitidas na rede mundial de computadores podem chegar sem nenhum “tratamento” ao computador do público, os zapatistas têm o cuidado de utilizar uma comunicação estrategicamente transparente, uma linguagem simples e capaz de comunicar quem são e o que querem. Ela traz detalhes do dia-a-dia das comunidades zapatistas para o cotidiano das pessoas, ganhando a confiança de quem busca informações sobre eles de uma forma nunca antes feita por outros movimentos sociais latino-americanos.
Ao iniciar a utilização da internet como estratégia de luta, há mais ou menos seis anos, o MST também deu início a um “burilamento” de seu discurso, abandonando a sua velha tática discursiva para usar uma nova maneira de divulgar informações sobre o movimento para o resto da sociedade. Isso é consequência do processo de aquisição de identidade e consciência próprias pelo qual os trabalhadores e trabalhadores rurais sem-terra se afirmam como sujeitos sociais atuantes. Concomitantemente com o início da informatização do MST, foi iniciada a etapa de mostrar ao mundo que o movimento é integrado por pessoas altamente comprometidas com a luta pela democratização da terra no Brasil e não por arruaceiros, como tenta mostrar a mídia tradicional. Além disso, é preciso destacar a iniciativa do movimento de investir em um ambicioso projeto de inclusão digital dos trabalhadores rurais que já estão assentados. Para o MST, é importante que os camponeses e seus filhos tenham acesso às novas tecnologias como tentativa de incentivá-los a permanecer no campo, sem deixar de estarem informados sobre o que se passa no mundo.
O cotejo entre o discurso do MST e do EZLN mostrou que os dois movimentos sociais utilizam maneiras diferentes para atingir a sociedade por meio da rede mundial de computadores. O discurso emancipatório dos movimentos sociais, agora veiculado também pela internet, representa uma nova maneira de lutar pela mudança social. Enquanto os zapatistas preferem uma linguagem muito mais poética e metafórica, que resgata elementos da linguagem indígena dos Chiapas, mas que, mesmo assim, é simples e transparente, o MST investe na objetividade e em textos jornalísticos para alcançar o internauta. Numa época em que a linguagem adquiriu evidência e centralidade na constituição, manutenção e desenvolvimento das nossas sociedades, os sites dos movimentos se tornaram verdadeiros cartões de visita, apresentando e divulgado a bandeira de luta do movimento, seja pela realização da reforma agrária, seja por justiça social e por democracia. Graças à Internet, eles obtêm visibilidade pública e angariam simpatizantes que se tornam adeptos das suas bandeiras de luta e apoiam suas causas.
As análises sobre os movimentos sociais constituídos no fim do século passado ou mesmo no início deste século devem necessariamente levar em consideração que esses novos movimentos sociais do século 21 aprenderam a utilizar a internet como ferramenta para criar novas conexões que buscam diminuir as fronteiras entre eles e a sociedade, vinculando a sua luta particular a uma luta maior contra as velhas e as novas formas de dominação. Atualmente, os movimentos sociais tentam mudar a realidade social, contribuindo com a (re)construção de uma simetria das relações de poder por meio do discurso divulgado em suas páginas de internet.


[1] As constatações deste artigo são resultado de uma pesquisa qualitativa, feita em 2005, que analisou textos virtuais e entrevistas com representantes dos dois movimentos em questão para a realização da dissertação de mestrado Movimentos sociais e a internet da mesma autora.
[2] Lévy (1999, p. 256)
Fonte: Le Monde Diplomatique Brasil

21 de jun de 2009

Dinamismo: a língua do povo

A busca por prender a atenção do público é, por certo, uma das grandes promotoras de transformações no formato de produções jornalísticas em todas as mídias.
O Jornalismo que se pretende útil deve ser bem compreendido e, para tanto, necessita dar conta das demandas do espectador. Pesquisar e entender o que esse público deseja ver estampado nos jornais impressos, ou narrado pelos telejornais, por exemplo, é uma estratégia de empresas jornalísticas na infindável luta pela qualidade e, é claro, pelo lucro.
Na prática, o reflexo da opinião pública são as mudanças na dinâmica de apresentação desses veículos. Projeto gráfico, linha editorial e inclusive mudanças na linguagem usada para informar são os principais alvos dessas adaptações.
O telejornal mais assistido do País, o Jornal Nacional, da Rede Globo, é um bom exemplo dos que entenderam que dinamizar é evoluir. Tradicionalmente adepto das velhas diretrizes jornalísticas e já bastante acusado de ser arcaico e desatualizado, o JN optou por celebrar os 40 anos que completa em 2009 de cara nova. Um projeto de reformulação vem sendo aplicado ao longo desse ano em resposta, entre outras demandas, a uma pesquisa realizada pela emissora que demonstrou que boa parte do público gosta do Jornal, mas não o entende perfeitamente. As novidades incluem uma renovação da linguagem, além de tornar o noticiário mais informal com a inserção de comentários de seus apresentadores e da dinamização do tempo, permitindo maior liberdade para as entradas ao vivo dos repórteres.
A Folha de São Paulo, jornal impresso de grande circulação no Brasil, também resolveu, em 2006, trazer para o seu projeto gráfico algo que corresponda à realidade do público: mais objetivo e prático. De acordo com o Jornal, a ideia era de atender tanto ao leitor que dispõe de tempo para ler o Jornal quanto àquele que busca por informação rápida. Segundo o designer Mario García, o projeto levou em conta as mudanças nos hábitos de leitura, sobretudo após a expansão da internet: "As pessoas estão cada vez mais seletivas em relação àquilo que vão ler.", afirma Garcia.
Quando essas adaptações são feitas de maneira equilibrada, o público se torna seu maior beneficiado. Se é ele quem dita o itinerário dessas transformações, o Jornalismo terá, cada vez mais, a cara de quem o recebe, podendo fechar brechas para distorções ou mesmo evitando o desperdício de informação.
Esse cenário de mudanças é mais uma arma na luta pelo Jornalismo saudável e mais uma tarefa para quem o provocou, o público, que se faz 'eternamente responsável por aquilo que cativou'.

postado por Luiz Felipe Leal em http://www.unb.br/fac/sos/site/index.htm

20 de jun de 2009

Liberdade de Imprensa

A liberdade de imprensa é o direito de informar sem restrições e o direito do público de ser informado. A Constituição afirma no Artigo 220 do Capítulo V - Da Comunicação Social, Título VIII - Da Ordem Social, que “A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo, não sofrerão qualquer restrição”, “É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística” e que “Os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio”.

Ela ainda assegura o direito de resposta e protege a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem de cada pessoa. Talvez todos esses direitos não sejam respeitados na prática, porque as Leis de imprensa não deveriam regular ou definir a imprensa, e o que é notícia ou não. Melhor seria se elas tivessem como único objetivo a garantia dos direitos do cidadão.


                   Entre os principais fatores limitantes dessa liberdade estão:

  • A propriedade dos meios de comunicação é concentrada e internacionalizada, pois não há limites nem normas eficazes contra a propriedade cruzada – um único grupo de mídia é proprietário de jornais, emissoras de rádio ou TV - e a consolidação de parcerias de grupos empresariais brasileiros com megaempresas globais nesse setor.
  • Os meios de comunicação deveriam ser uns bem públicos, afinal sua função é social, de formação de uma identidade cultural (de conceitos, convicções e linguagem). Porém quem determina essa função são os proprietários e o capital que é investido.
  • Os chamados “meios alternativos”, por serem independentes do Estado ou de qualquer empresa, atuam em pequenas regiões para grupos específicos com certa liberdade e diversidade. Porém tal independência é ameaçada pela forte concorrência com a “grande imprensa” e por não apresentar benefícios financeiros.
  • O jornalista deve se submeter à orientação editorial. São poucos os que podem se manifestar livremente, e, mesmo os que têm maior liberdade, que são os colunistas, não estão totalmente isentos de alguma limitação. Em toda publicação ele deve seguir a linha e a política editorial.
  • A maioria dos grupos midiáticos está integrada e relacionada com uma estrutura político-econômica, dependendo de anunciantes privados ou estatais. Nada que prejudique os anunciantes, direta ou indiretamente, será publicado. A notícia se torna, assim, uma mercadoria ou um canal de propaganda.
  • O jornalismo investigativo, que denuncia organizações e esquemas ilegais, sofre com pressões externas por parte de pessoas influentes.

                    Os fatores limitantes da liberdade de imprensa são muitos, mas, no Brasil, percebe-se que a liberdade relaciona-se diretamente com a dependência dos meios de comunicação. A informação não pode ser submetida a qualquer entidade governamental ou corporativa. Como essa é a base prevista na lei para o surgimento ou manutenção desses veículos, sua função não é exercida livremente.


Por Amanda Maia, estudante da Universidade de Brasília.

18 de jun de 2009

Supremo derruba exigência do diploma para jornalistas

Escrito por MÁRCIO FALCÃO da Folha Online, em Brasília

"Por 8 a 1, o STF (Supremo Tribunal Federal) derrubou hoje a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista. Só o ministro Marco Aurélio Mello votou pela manutenção do diploma.

O primeiro a votar foi o presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Gilmar Mendes, relator do caso. Mendes defendeu a extinção da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista.

Na avaliação do presidente do STF, o decreto-lei 972/69, que estabelece que o diploma é necessário para o exercício da profissão de jornalista, não atende aos critérios da Constituição de 1988 para a regulamentação de profissões.

Mendes disse que o diploma para a profissão de jornalista não garante que não haverá danos irreparáveis ou prejudicar direitos alheios.

"Quando uma noticia não é verídica ela não será evitada pela exigência de que os jornalistas frequentem um curso de formação. É diferente de um motorista que coloca em risco a coletividade. A profissão de jornalista não oferece perigo de dano à coletividade tais como medicina, engenharia, advocacia nesse sentido por não implicar tais riscos não poderia exigir um diploma para exercer a profissão. Não há razão para se acreditar que a exigência do diploma seja a forma mais adequada para evitar o exercício abusivo da profissão", disse.

O voto de Mendes foi seguido pelos ministros Carmen Lucia, Eros Grau, Ricardo Lewandowski, Ayres Britto, Cezar Peluso, Ellen Gracie e Celso Mello.

"Esse decreto é mais um entulho do autoritarismo da ditadura militar que pretendia controlar as informações e afastar da redação dos veículos os intelectuais e pensadores que trabalhavam de forma isenta", disse Lewandowski.

Os ministros do STF aceitaram o recurso interposto pelo Sertesp (Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão no Estado de São Paulo) e Ministério Público Federal contra a obrigatoriedade do diploma.

Em novembro de 2006, o ministro Gilmar Mendes, relator do caso, havia decidido liminarmente pela garantia do exercício da atividade jornalística aos que já atuavam na profissão independentemente de registro no Ministério do Trabalho ou de diploma de curso superior na área. Hoje, o plenário confirmou a decisão.

Argumentos

A advogada do Sertesp, Tais Gasparian, argumentou aos ministros que a obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo é inconstitucional porque a Constituição de 1988 garante a liberdade de expressão e do livre pensamento. Ela disse ainda que a profissão de jornalista não depende de conhecimentos técnicos.

"A profissão não depende de um conhecimento técnico específico. A profissão de jornalista é desprovida de técnicas. É uma profissão intelectual ligada ao ramo do conhecimento humano, ligado ao domínio da linguagem, procedimentos vastos do campo do conhecimento humano, como o compromisso com a informação, a curiosidade. A obtenção dessas medidas não ocorre nos bancos de uma faculdade de jornalismo."

A advogada afirmou ainda que em outros países, como Estados Unidos, França Itália e Alemanha, não há a exigência do diploma. "Nos EUA, a maioria esmagadora dos jornalistas é formada em escola, mas nem por isso se obriga a exigência de diploma", afirmou.

Já o advogado da Fenaj, João Roberto Fontes, saiu em defesa do diploma. Ele disse que há a necessidade do diploma para garantir a boa prática do jornalismo. "A exigência do diploma não impede ninguém de escrever em jornal. Não é exigido diploma para escrever em jornal, mas para exercer em período integral a profissão de jornalista. O jornalismo já foi chamado de quarto Poder da República. Será que não é necessário o conhecimento específico para ter poder desta envergadura? Um artigo escrito por um inepto poderá ter um efeito devastador e transformar leitores em vítimas da má informação", afirmou.

O procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, por sua vez, disse que a obrigatoriedade do diploma pode prejudicar a informação do leitor.

"Não se pode fechar os olhos para o fato de que jornalismo é uma atividade multidisciplinar e que muitas notícias e artigos são prejudicados porque são produzidos apenas por um jornalista especialista em ser jornalista, sendo que em muitos casos essa informação poderia ter sido produzida por um jornalista com outras formações, com formação específica em medicina, em botânica, com grande formação acadêmica, mas que não pode exercer o jornalismo porque não tem diploma. Não se pode desprezar esse contexto", disse.

Lei de Imprensa

No final de abril, o Supremo decidiu revogar a Lei de Imprensa, criada no regime militar. Com isso, os jornalistas e os meios de comunicação serão processados e julgados com base nos artigos da Constituição Federal e dos Códigos Civil e Penal.

Nos crimes contra a honra --calúnia, injúria e difamação--, o julgamento será feito com base no Código Penal, que tem punição mais branda que a Lei de Imprensa. Já os pedidos de indenização por danos morais e materiais serão julgados com base no Código Civil.

O direito de resposta, segundo o ministro do STF Menezes de Direito, não precisa de regulação pois já está previsto na Constituição, em seu artigo 5.

Já o presidente do STF, Gilmar Mendes, defendeu uma norma específica para tratar do direito de resposta. 'Não basta que a resposta seja no mesmo tempo, mas isso tem que ser normatizado. Vamos criar um vácuo? Esse é o único instrumento de defesa do cidadão.'

Sem essa norma específica, os juízes decidirão sobre o direito à resposta, seu tamanho e forma de publicação."

16 de jun de 2009

Twittermania!

extraído do site do jornal "Estado de São Paulo"

"Depois de crescer 1.382% em um ano, o Twitter chegou à capa de uma das mais importantes revistas do mundo, a Time. Assinada pelo colunista de cultura digital, o pesquisador Steven Johnson, a matéria diz que o serviço está "mudando a nossa maneira de viver e nos mostrando o futuro da inovação".

Mas o que isso quer dizer, afinal? Em suma, que devemos mudar a maneira como hoje encaramos a rede social.

Um estudo de Harvard, da semana passada, diz que o Twitter já deve ser tratado como um meio de comunicação, e não como um site despretensioso para jogar frases randômicas.
Há inovação, sim. Mas se ela vier sem responsabilidade, a ferramenta pode também te meter em apuros.

Teste de 'videntes' é feito pelo Twitter

É possível identificar paranormais pedindo que eles usem o Twitter? O psicólogo Richard Wiseman, da Universidade de Hertfordshire, pensa que sim. Tanto é que pediu que pessoas que acreditavam ter esses poderes o "seguissem" na rede social durante quatro dias, para participar de um teste empírico.

Escondido, ele enviava um tweet para a lista. Depois, pedia que os participantes escrevessem de volta, descrevendo o que sentiram a respeito do lugar desconhecido.

Em seguida, o pesquisador enviava fotos de cinco locações, sendo apenas uma delas verdadeira. Em todas as quatro tentativas, o grupo de "paranormais" escolheu a foto errada. "Na primeira tentativa eu estava olhando para um edifício extremamente moderno, mas a maior parte do grupo de voluntários acreditou que eu estava em uma floresta", brincou.

Dos mil voluntários que participaram da experiência, 38% acreditavam em vidência e 16% diziam ter habilidades psíquicas. Houve uma grande diferença nos acertos dos céticos (12%), em relação ao dos crentes (31%).

Um assaltante na lista de 'followers'

O norte-americano Israel Hyman facilitou o trabalho dos assaltantes que invadiram a sua casa: postou no Twitter que estava de férias com sua família.

Conhecido como @IzzyVideo no serviço de microblogging, Hyman perdeu milhares de dólares em computadores e equipamentos de vídeo enquanto viajava com a família para Kansas City, nos Estados Unidos.

"Não sei se foi por causa do Twitter. Mas isso faz você parar para pensar sobre o que está divulgando publicamente na internet", disse Hyman, que afirmou que vai continuar a usar a ferramenta. Só que agora com mais cuidado com o que está publicando e sabendo que ladrões também podem acessar a web.

Gingrich twitta que Sotomayor é racista

Menos de 24 horas depois do anúncio, pelo presidente americano Obama, de que Sonia Sotomayor assumiria a Suprema Corte dos Estados Unidos, o ex-porta-voz da Casa Branca Newt Gingrich twittou: "Se um branco racista tivesse sido indicado, o forçariam a renunciar. Uma latina racista também deveria renunciar". Cerca de 400.000 pessoas viram a gafe, o que obrigou Gingrich a se desculpar. O episódio, que não é isolado, prova que muitos políticos não entenderam que o Twitter não é um bate-papo com os amigos. É um site público, onde deve-se responder pelo que se fala.

Até stand-up já se faz pela rede social

O Twitter Comedy Club (@tweetcomedyclub) decidiu convidar comediantes de stand-up para transformarem em tweets 10 minutos de suas performances. Infelizmente, Jerry Seinfeld ainda não está no Twitter.

Celebridades iniciam guerra contra fakes

Antes, celebridades brasileiras no Twitter só os já folclóricos fakes @vitorfasano e @zedocaixao. Agora, talvez pelo "efeito Oprah" (e seu potencial de autopromoção), os verdadeiros famosos também estão dando as caras - e "caçando" aqueles usuários que se passam por eles.

O apresentador Luciano Huck, por exemplo, chegou ao site quando soube que alguém usava o seu nome. Acabou gostando, divulgando o @huckluciano em seu programa. O mesmo aconteceu com Tico Santa Cruz, vocalista do Detonautas, que também aderiu ao serviço para combatê-los.

O Twitter também quer acabar com os perfis falsos. Tanto é que na quinta ativou um programa de contas verificadas, para famosos. Fakes, tremei."



15 de jun de 2009

"A internet é o fast-food da informação", diz Gay Telese

Texto extraído do portal "Comunique-se".


O ícone do jornalismo mundial Gay Talese, reconhecido como um dos fundadores do New Journalism, solta o verbo contra a internet e as novas tecnologias. Para o autor do perfil “Frank Sinatra has a cold” – considerada a melhor reportagem já publicada pela revista americana Esquire –, “a internet é o fast-food da informação. É feita para quem quer atalho, poupar tempo, conclusões rápidas, prontas e empacotadas”.
“Para piorar, surgiram esses blogs com blogueiros desqualificados, que apenas divulgam fofoca. São como uma torcida num jogo de futebol que fica o tempo todo gritando para os jogadores, para o juiz. É gente que não apura nada, só faz barulho", disse Talese em entrevista a Veja (íntegra para assinantes).
A geração atual de jornalistas também não foi poupada. Talese criticou a falta de “ceticismo” e estranhamento dos profissionais de imprensa.
“Os repórteres de hoje cobrem a guerra dentro dos tanques das tropas americanas. É ridículo. Um repórter deve prestar contas ao seu jornal, e não ao coronel que está protegendo a sua vida”, afirmou.
"A crise é dos jornais americanos"Apesar das críticas, Talese acredita no futuro do jornalismo. Ao comentar a atual situação financeira da imprensa americana, foi direto: “A crise dos jornais americanos não é uma crise do jornalismo americano”.
“As pessoas esquecem que os jornais vão e vêm. O jornalismo, não. As pessoas vão sempre precisar de notícia e informação. Sem informação não se administra um negócio, não se vende ingresso para o teatro, não se divulga uma política externa. Todos os dias, nos jornais das cidades grandes ou pequenas, repórteres vão à rua para fazer o que não é feito por mais ninguém”, disse.
"Acho uma profissão honrosa, honesta"Aos 77 anos e dedicando seu tempo aos livros, Talese ainda se encanta com a profissão e diz ter “orgulho de ser jornalista”.
“De todas as profissões, se um jovem estiver interessado em honestidade e não estiver interessado em ganhar muito dinheiro, eu aconselharia o jornalismo, que lida com a verdade e tenta disseminar a verdade. Há mentirosos em todas as profissões, inclusive no jornalismo, mas nós não os protegemos. Os militares acobertam mentirosos. Os políticos, os partidos, o governo, todos fazem isso. O escândalo do Watergate é uma crônica de acobertamento. Os jornalistas não agem assim, não toleram o mentiroso entre eles. Acho uma profissão honrosa, honesta”.

10 de jun de 2009

Governo é criticado por regionalizar anúncios

A estratégia do governo federal para os investimentos em publicidade governamental vem provocando intensos debates. A divulgação do crescimento de 961% dos meios de comunicação utilizados para a veiculação de anúncios, sem acréscimo expressivo no valor gasto por outras gestões, foi recebida de forma crítica pela grande mídia comercial e de maneira esperançosa por veículos de menor porte.

Em matéria publicada na Folha de S.Paulo no dia 31 de maio, Fernando Rodrigues expôs de forma minuciosa o movimento de pulverização dos investimentos em propaganda promovido pela Secretaria de Comunicação Social do governo (Secom). Em 2008, o governo divulgou peças publicitárias em 5.297 veículos, sendo 2.597 rádios e 297 TVs, número muito superior aos 499 meios de comunicação que recebiam recursos para fins de promoção em 2003. Nesse período, o número de municípios atingidos pelos anúncios do Executivo Federal cresceu de 182 para 1.149.

O texto explicita a orientação editorial do jornal ao realizar uma comparação inoportuna entre a publicidade das empresas privadas e do governo federal para sugerir uma desproporção na estratégia desse último. Junto a uma coluna de Fernando Barros e Silva, editor de "Brasil" do mesmo jornal, a reportagem gerou repercussão entre jornalistas e meios de comunicação.

Barros e Silva apelidou a política de "bolsa-mídia" e acusou-a de "compra de mídia de segundo e terceiro escalões". O editor da Folha de S.Paulo sugere uma relação entre o movimento de diversificação dos investimentos publicitários e a avaliação popular do presidente da República, afirmando que "essa mídia de cabresto que se consolidou no segundo mandato ajuda a entender e a difundir a popularidade do presidente. E talvez explique, no novo mundo virtual, o governismo subalterno de certos blogs que o lulismo pariu por aí".


Governo rebate críticas


Segundo Ottoni Fernandes Júnior, subchefe-executivo da Secom, a estratégia de pulverização e regionalização das campanhas do governo federal não é nova e é colocada em prática desde a gestão do ex-ministro Luiz Gushiken, que dirigiu a pasta até 2005.

Para Fernandes Júnior, a regionalização da distribuição das verbas publicitárias é um movimento natural e a comparação do investimento em propaganda do governo com o de empresas privadas é um erro. "A função das propagadas de um e de outro [governo e empresas privadas] é completamente diferente. As empresas têm foco na venda dos seus produtos, no consumo, e o nosso foco são nos direitos e deveres do cidadão."

Ele explica que as mudanças são de ordem conceitual e que a Secom é munida de uma equipe de especialistas que estuda a mudança das mídias e a melhor forma de dialogar com os diferentes segmentos da população. "A publicidade governamental tem que ser segmentada, tanto na linguagem quanto no conteúdo. Se eu tenho que anunciar o Pró-Jovem, por exemplo, eu tenho que fazê-lo com a linguagem adequada para os jovens da periferia das grandes cidades que são os principais interessados. Eu tenho então que me adequar à linguagem deles e também aos meios que eles usam, bem como com todos os outros segmentos", argumenta.

Ainda segundo o subchefe-executivo da Secom, as conclusões dos estudos e análises sobre a circulação dos meios de comunicação brasileiros – que demonstraram enorme crescimento das mídias regionais e locais – embasaram a decisão do governo de passar a investir na pulverização da propagada e na ampliação dos destinatários das verbas publicitárias oficiais.


Privilégio ameaçado


Segundo dados do IVC (Instituto Verificador de Circulação), órgão que averigua a circulação de publicações no país, entre dezembro de 2003 e abril de 2009, houve um crescimento de 121% dos jornais de baixo custo, vendidos por valores de até R$ 0,50 por exemplar. Já os jornais tradicionais, concentrados no eixo Rio-São Paulo-Brasília, tiveram sua tiragem estagnada e cresceram apenas 2% nesse mesmo período. Os dados do IVC mostram ainda que os grandes jornais das demais capitais do Brasil cresceram 41% e os das cidades não capitais, 62%.

Diante das informações, Fernandes Júnior justifica que seria um erro do governo continuar alocando as verbas publicitárias em poucos veículos. "A concentração nos grandes meios de comunicação é um problema do administrador que assume uma secretaria como essa a acha que o Brasil é todo de classe média e de formação superior igual a ele. Estamos fazendo diferentes peças, para diferentes jornais e diferentes públicos. Isso é respeitar a diversidade e promover a democratização", sublinha. Avaliando a postura da Folha de S.Paulo, pondera que "quem faz esse choro não fazia quando a verba era concentrada".

A insatisfação da grande mídia comercial com a estratégia de publicidade do governo foi questionada também pelo jornalista e crítico de mídia Luiz Antônio Magalhães, editor executivo do site Observatório da Imprensa. Em artigo, Magalhães defende a estratégia do governo federal e lamenta a postura patronal dos jornalistas, que, na visão do autor, representa os interesses empresariais.

"Com a maior distribuição dos recursos de propaganda, na prática o governo fomenta a democratização dos meios de comunicação. Antes, só os grandões levavam o meu, o seu, o nosso dinheirinho, impedindo o crescimento de outras publicações. Agora, jornais regionais e pequenos também levam e podem se tornar competitivos, o que é ótimo para a sociedade de várias formas: dinamiza o mercado de trabalho do setor, possibilita que diferentes vozes tenham meios de expressar suas idéias, enfim, é tudo de bom", compara.


Pulverização insuficiente


Para Renato Rovai, editor da Revista Fórum e participante do Fórum de Mídia Livre, o governo ainda não descentralizou da forma como deveria a sua publicidade institucional. "Essas mudanças são importantes, mas ainda são tímidas. Só as organizações Globo, da qual fazem parte as emissoras de televisão, o jornal e a Editora Globo, abocanha ainda quase metade de toda a verba deste tipo de publicidade. O que existe já é uma boa sinalização, mas ainda deve-se ir mais adiante com a descentralização", defende Rovai.

Segundo o jornalista, o valor gasto com publicidade governamental pelo governo federal ainda é pequeno se comparado proporcionalmente a governos estaduais como os de São Paulo e do Rio Grande do Sul. "A estratégia é corretíssima do ponto de vista democrático. Os veículos grandes estão preocupados porque o governo federal está diminuindo o investimento neles."


Texto de Mariana Martins, em http://observatoriodaimprensa.com.br/ (com adaptações)

9 de jun de 2009

E que o rádio seja ligado

A situação é clichê: o engarrafamento não aparenta diminuir e mesmo que o trânsito estivesse livre, ainda faltariam mais de 30 minutos para chegar em casa. Não há muito o que fazer e é nessa hora que o rádio é ligado. As notícias vão sendo transmitidas e mesmo sem notar, o conteúdo é adquirido pelo ouvinte que iria ficar se estressando com vontade de ir para o seu destino e, provavelmente, iria assistir ao jornal televisivo para acompanhar as mesmas notícias que está recebendo no momento.

A praticidade do rádio é o grande motor para que este se mantenha vivo na atualidade. A facilidade em se obter informações sem que a mente esteja necessariamente focada apenas naquilo faz com que ele seja o escolhido como uma fonte de notícias.

O rádio ganha destaque também no quesito precisão. Salva exceções, o conteúdo é distribuído apenas com o suprassumo da notícia. Ao contrário da televisão que acaba exagerando e tornando a notícia um verdadeiro show de imagens, deixando o conteúdo, por muitas vezes, vazio.

O discurso sobre o fim das rádios não é novidade. Quando a televisão chegou ao alcance das pessoas já era sentenciado que a briga seria desleal demais para que as rádios permanecem ativas. E agora a luta é novamente reerguida com a Internet. Aliás, a Internet é tomada como a grande vilã do mundo moderno. Para muitos, ela é a responsável pela queda da audiência dos maiores programas televisivos e pela dispersão dos ouvintes das grandes rádios.

É ilusório pensar assim. É lógico que a internet direciona a notícia, faz com que as pessoas busquem apenas o que lhe é de agrado, mas dizer que o meio online é capaz de derrotar os outros meios é generalizar demais. O rádio vem se adaptando a nova onda de websites, as maiores rádios distribuem seu conteúdo em tempo real e algumas ainda disponibilizam parte do conteúdo para o acervo de download no próprio site.

Como um modelo ainda experimental, as web rádios ainda precisam se aprimorar. Porém, é vantajosa a questão da interatividade que esta ferramenta pode trazer. A programação é criada pelo ouvinte e este é o responsável para dar o retorno da audiência destas rádios.

Um meio de comunicação não elimina o outro e uma junção entre eles deve ser feita para que sejam produzidas novas formas de se transmitir informação e entretenimento para ser recebida por todos os tipos de pessoas, em todos os lugares do mundo. Só desta forma será possível uma duradoura permanência do rádio nas próximas décadas.

8 de jun de 2009

Um pouco de colaboratividade

Depois de discutirmos sobre Jornalismo Popular e Jornalismo Literário, irei falar sobre uma ousada experiência que acontece nos Estados Unidos envolvendo uma outra forma de produção de conteúdo jornalístico: o Jornalismo Colaborativo. Trata-se do Spot Us uma organização sem fins lucrativos, que se define como "jornalismo financiado pela comunidade". A idéia é que os cidadãos não só proponham uma pauta, mas também fiquem responsáveis por arrecadar fundos para a investigação da matéria. Mas antes de continuarmos falando mais sobre esse projeto, precisamos saber o que é esse tipo de jornalismo.

Jornalismo Colaborativo, Jornalismo Cidadão, ou ainda Jornalismo Participativo é o tipo de jornalismo em que há interferência direta do público. As pessoas deixam de ser apenas espectadores e passam a ter um papel ativo na produção da reportagem. Resumindo: há jornalismo colaborativo quando a participação do público for essencial para a existência da matéria.

O Jornalismo Colaborativo foi crescendo conforme as mídias digitais ganhavam maturidade. A Internet possibilita qualquer um relatar os acontecimentos que julgar mais importante. Desse modo, os jornalistas têm agora milhares de aliados nas tarefas de apuração e coleta de informação. Qualquer um pode criar uma notícia.

As grandes empresas de comunicação já perceberam a importância desse movimento. Cada vez mais cidadãos leigos participam do processo de criação da reportagem, se não produzindo, mas comentando, enviando fotos ou sugerindo pautas. Para citar alguns exemplos de como esse tipo de jornalismo é praticado aqui no Brasil temos o VC no G1, o VC Repórter e o Minha Notícia.

A idéia do site norte-americano Spot Us é extremamente interessante: os cidadãos propõem um tema e arcam com as despesas da investigação e da produção da reportagem. Digamos que uma fábrica tem despejado seus resíduos tóxicos num rio próximo à comunidade em que você vive. Se você gostaria de ver uma reportagem denunciando essa fábrica, sugira o assunto ao Spot Us. Depois disso ajude a levantar fundos para a organização contratar os jornalistas e pagar os custos com a reportagem. Quando a matéria estiver pronta a Spot Us vai trabalhar para divulgar o trabalho no maior número possível de meios de comunicação. Com isso, consegue-se promover a participação e a interação do público no processo de produção da notícia, dando voz a comunidades e temáticas muitas vezes esquecidas pela grande mídia. A partir de projetos como esse, que vemos a concepção de notícia mudar. Ela passa a ser vista muito mais como o resultado de uma troca entre o jornalista e o público do que uma escolha unilateral restrita somente àqueles que trabalham na redação de um veículo de comunicação.

A experiência é ainda mais inovadora porque, espelhado nas milhares de pequenas doações que sustentaram a campanha de Obama, o projeto requer que as pessoas financiem a reportagem. A ferramenta colaborativa inova, mas é necessário cautela, pois uma das críticas que se faz a todas as formas de Jornalismo Colaborativo é a de que por trás do interesse em participar da produção da reportagem haja também intenção de se promover a própria imagem e outros interesses individuais ocultos na participação popular.

O projeto é colocado à prova no momento em que jornais de todo o mundo, especialmente nos Estados Unidos, demitem funcionários para diminuir os custos e ainda reduzem a quantidade de matérias investigativas. Essa pode ser uma boa resposta à crise do jornalismo tradicional. Eis um projeto que vale ser acompanhado de perto.

7 de jun de 2009

O engenho da palavra

Ainda sob a temática do Jornalismo Literário, após vermos do que se trata, falemos um pouco sobre alguns dos grandes nomes deste estilo.

A Oficina de Jornalismo Literário Outra Pauta elaborou uma relação de alguns dos jornalistas-autores que ajudaram a construir uma imagem outra para a profissão de repórter. Obviamente a lista não se pretende exaustiva – ela é apenas uma introdução a alguns dos principais nomes do jornalismo literário.

Truman Capote
Famoso e freqüentador das altas rodas da sociedade nova-iorquina, Truman Capote é quem inaugurou o New Journalism com A Sangue Frio (In Cold Blood). Prodígio e precoce, Capote escrevia disciplinadamente por no mínimo três horas por dia desde os 11 anos de idade. Outra dado peculiar sobre sua personalidade era a capacidade aguçada de memorizar diálogos. Ingressou muito cedo no jornalismo. Com apenas 17 anos Capote já publicava suas matérias na Harper’s Bazaar. Sua fama vem com a ficção Breakfast at Tiffany’s (Bonequinha de Luxo), que mais tarde será adaptado para o cinema impulsionando a fama de seu autor. Numa manhã de novembro de 1959 Capote se depara com uma nota sobre o assassinato de uma família inteira no interior do Kansas. Ao se deslocar para as paisagens desoladas das plantações do Kansas, Capote vai produzir durante os próximos 5 anos um trabalho jornalístico exaustivo na investigação da chacina. O resultado é In Cold Blood – livro-reportagem publicado em quatro partes pela New Yorker e que vai dar origem ao estilo da prosa de não-ficção mais tarde batizada por Tom Wolfe de New Journalism.

Hunter Thompson
De longe a figura mais instigante, irreverente e encantadora de toda a aventura do New Journalism. Hunter Thompson foi a própria contracultura traduzida numa forma de escrita absolutamente livre no jornalismo. Thompson foi o criador do chamado Gonzo Journalism – um estilo de jornalismo que se constitui por negar qualquer forma pré-definida do que possa vir a ser considerado como jornalismo. O Gonzo Journalism é a subversão total das convenções jornalíticas. O repórter tem liberdade absoluta de se incluir no próprio relato e também de abrir digressões labirínticas em qualquer direção. Tudo isto é possível desde que se tenha o gênio de Hunter Thompson para encontrar numa corrida de cavalos no Kentucky material suficiente para compor um retrato da decadência da sociedade do sul dos EUA. Depois desta primeira reportagem, a revista Rolling Stone o contratou para uma série de reportagens sobre gangues de motoqueiros. A experiência produziu duas coisas, em primeiro lugar a coletânea dessas reportagens deu origem ao livro “Hell”s Angels – Uma Estranha e Terrível Saga” – no qual Thompson escreve num estilo típico do New Journalism. Em segundo lugar a reportagem resultou numa série de hematomas e machucados decorrentes da surra que Thompson levou quando alguns integrantes da gangue começaram a discordar da publicidade que as matérias estavam projetando sobre os motoqueiros por todo o país. Em seguida Thompson vai lançar Fear na Loathing in Las Vegas (traduzido na edição brasileira por Las Vegas na Cabeça) – seu livro-reportagem mais conhecido e adaptado já na década de 90 para as telas de cinema sob a batuta do diretor Terry Gillian. O pai do Gonzo Journalism suicidou-se em fevereiro de 2005 depois de uma série de cirurgias na região da bacia e que não conseguiram eliminar as fortes dores que vinha enfrentando já há alguns anos. Em função dessa dores Thompson tinha um jeito muito particular de caminhar e que acabou marcando suas últimas aparições em público. Além de Hell’s Angels, Medo e Delírio em Las Vegas, também foram lançados no Brasil seus A Grande Caçada aos Tubarões, Rum Diary – O Diário de um Jornalista Bêbado e Screw Jack.

Gay Talese
Outro grande nome gerado pelas experiências estilísticas do New Journalism é, sem dúvida, o desse ex-aluno do curso de Jornalismo da Universidade do Alabama. Talese começou ainda na década de 50 como redator na sessão de obituários do New York Times. Eventualmente conseguia publicar algumas reportagens ainda sem assiná-las, como a que fez sobre o aniversário da Times Square, ao entrevistar o responsável pela projeção dos letreiros eletrônicos com as manchetes dos jornais que existia na famosa praça de Nova York. Hoje Talese é professor de jornalismo na Universidade do Sul da Califórnia. Seu artigo mais importante foi o que escreveu sobre Frank Sinatra, no qual narra as dificuldades em conseguir uma entrevista com o cantor. A reportagem com o título de Frank Sinatra Está Resfriado é uma síntese das principais técnicas empregadas pelos novos jornalistas. Um dos artifícios mais característicos de Talese são as cenas in medias res, expressão que em latim significa “no meio das coisas”. Abre-se uma narrativa inserindo o leitor diretamente para dentro da ação e, aos poucos, a narrativa passa a desvelar os significados que tornam possível sua compreensão num nível mais aprofundado.

Outros nomes importantes são: Tom Wolfe, Norman Mailer, Stephen Crane, Susan Sontag, Raymond Mungo, IF. Stone e Michael Herr.

Texto do Prof. Dr. Silvio Demétrio extraído de http://outrapauta.wordpress.com/jornalismo-literario/ (com alterações).

6 de jun de 2009

Jornalismo Literário

A última postagem em nosso blog completava a nossa discussão sobre Jornalismo Popular.
Fazendo um gancho com ela e a fim de estimular nossa pesquisa sobre o tema atual, apresento um texto extraído do sítio infoescola.com, escrito por Ana Lucia Santana, que esclarece o Jornalismo Literário.

Em minha pesquisa, atentei-me a um detalhe: existe uma Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Acessar o sítio www.abjl.org.br

O Jornalismo Literário é um estilo que une o texto jornalístico à literatura, com o objetivo de produzir reportagens mais profundas, amplas e detalhistas, com uma postura ética e humanizada. Este ramo do jornalismo foge do noticiário superficial, revela um universo que geralmente fica oculto nas entrelinhas das matérias cotidianas e apresenta um ponto de vista pessoal, autoral, sobre a realidade. Assim, pode-se afirmar que o Jornalismo Literário é uma mescla de Jornalismo, Literatura e História, praticado com responsabilidade e princípios morais. Ele pode ser expresso através de livros, filmes, programas de TV, artigos de jornais e revistas, meios virtuais, entre outros.
Esta especialidade é também chamada de literatura não-ficcional, literatura da realidade, jornalismo em profundidade, jornalismo diversional, reportagem-ensaio, jornalismo de autor. A subjetividade que a marca contrapõe-se à extrema objetividade do ‘lead’. Esta modalidade aparece na mídia no século XIX, em solo europeu. Na década de sessenta, no território norte-americano, destaca-se o exercício investigativo de Truman Capote, autor do livro-reportagem “A Sangue Frio”, no qual reconstitui detalhadamente um crime monstruoso ocorrido nos EUA, acentuando o perfil das vítimas e o caráter dos jovens criminosos. No Brasil, tornou-se famosa a prática exercida pelos jornalistas da Revista Realidade e do Jornal da Tarde, que apostaram em um jornalismo que vai além das aparências e mergulha fundo nos fatos, gerando obras criativas, que exploram o lado autoral de cada jornalista, e ao mesmo tempo exigem destes profissionais o apuro na apresentação de dados minuciosos e a procura do ser humano por trás dos fatos objetivos.
A Revista Realidade foi uma das pioneiras desta modalidade jornalística no Brasil. Nascida em 1966, em pleno Grupo Abril, primava por reportagens muito bem produzidas, vindas à luz através de textos primorosos e atraentes. Ela foi inspirada no movimento corrente nos Estados Unidos entre os anos 60 e 70, o New Journalism, traduzido como Jornalismo Literário. Nomes de destaque brilharam nesta especialidade, além de Capote - Tom Wolfe, Gay Talese, Norman Mailer, Joseph Mitchel, entre outros. Esta prática do texto jornalístico mesclado com elementos da literatura também foi exercida quase involuntariamente por escritores talentosos como Euclides da Cunha, em sua obra-prima “Os Sertões”, João do Rio, jornalista e escritor, e o autor colombiano Gabriel García Márquez. A liberdade temática propiciada pelo Jornalismo Literário continua a atrair jornalistas e leitores para esta modalidade, principalmente em momentos nos quais as pessoas procuram compreender mais profundamente os fatos ocorridos, ansiosas por vislumbrar as causas dos eventos que as afligem. Assim, em meio a um jornalismo cada vez mais sensacionalista e superficial, ainda viceja esta modalidade jornalística, principalmente na forma de livros, como os publicados pela editora Companhia das Letras, em uma coleção focada justamente no Jornalismo Literário nacional e internacional.

Bom ou mau jornalismo, popular ou de qualidade: dois conceitos diferentes

Aproveitando ainda o embalo do tema "Jornalismo Popular é de qualidade?", trago pra vocês parte do resumo do programa Observatório do dia 14/04/2009.


Momento de consolidação
Ainda antes do debate ao vivo, em editorial, Dines comentou que enquanto jornais deixam de circular em todo o mundo, no Brasil o fenômeno da imprensa popular consolida-se. "A melhoria do transporte de massas e a estabilidade da moeda a partir de 1995 acionaram um processo de ascensão social do qual se beneficiaram muitos setores da economia. Principalmente a indústria jornalística", disse. O jornalista alertou que o "deslumbramento" com este modelo de imprensa não deve esconder as preocupações com a chamada "imprensa de qualidade".
A reportagem exibida no programa mostrou a experiência do Super Notícia, publicado em Belo Horizonte. Lançado há sete anos, o jornal está entre os mais vendidos no país. Um dos fatores que contribui para o sucesso é a distribuição inovadora. Além das convencionais bancas de jornal, também é oferecido por vendedores ambulantes em pontos de grande circulação e em postos alternativos, como padarias. E o preço é convidativo: R$ 0,25 por exemplar. Lúcia Castro, Editora Executiva do Super Notícia, explicou que o jornal não só tirou leitores dos concorrentes, como também trouxe um público novo. O Diretor Executivo do jornal, Teodomiro Braga, ressaltou que é uma preocupação da empresa atender aos leitores de todas as classes sociais, por isto o diário é encontrado também em favelas e comunidades carentes de Belo Horizonte.
O programa entrevistou o jornalista Arnaldo César, que foi Editor Executivo de O Dia. A questão de fundo que precisa ser discutida, na opinião do jornalista, não é o crescimento ou a queda na circulação dos jornais – independentemente do perfil em que estejam enquadrados. A grande preocupação de Arnaldo César é sobre o futuro dos jornais impressos. Desde a virada do século, há uma migração de leitores dos impressos para a internet. Os jornais estão conseguindo exercer o papel de formadores da opinião pública do país, imprescindível em um ambiente democrático?


Uma volta ao passado
No debate ao vivo, Dines comentou que o fenômeno dos jornais populares não é novo. Hoje, tenta-se "reinventar o que sempre existiu", disse Dines em referência a jornais do século passado. O jornalista ressaltou que o Extra, por exemplo, pertence à Infoglobo, empresa que tem tradição em jornalismo popular. O Globo e A Noite, no passado, encaixavam-se no perfil de vespertino popular. Já O Dia, mantém-se no mercado há mais de 50 anos sempre com o mesmo modelo, mas com alterações na linha editorial. O Grupo Folha também atua no segmento há décadas. Para Octávio Guedes "não está se inventando a roda". O editor-chefe do Extra relembrou que no número de lançamento de O Globo, havia uma matéria especial sobre um problema que ainda é assunto de destaque nos jornais populares, os buracos nas ruas da cidade. Octávio Guedes ponderou que não há diferença entre jornalismo popular e "de qualidade". O que difere é "bom ou mau jornalismo".
Antonio Rocha Filho comentou que a estabilidade da moeda alcançada em meados dos anos de 1990 propiciou o ressurgimento dos jornais populares. O Agora foi produto deste período em que as empresas de comunicação passaram a investir em novos projetos. Desde o início, apresentou um modelo diferente dos jornais que circulavam em São Paulo ao privilegiar a prestação de serviços para o leitor. O que é importante para o cotidiano do leitor em diversos setores, como saúde e trabalho, é notícia. Nos últimos anos, o Agora passou a focar na chamada economia popular, voltando-se para a cobertura da Previdência Social, para atender a uma demanda dos leitores. Para o secretário de Redação do Agora, o que difere o jornalismo popular de hoje do que foi publicado no passado é o sensacionalismo. Atualmente, há conteúdo de apelo popular, mas com menor destaque.
A nomenclatura aplicada aos modelos de jornalismo também foi criticada por Alexandre Freeland. Se o jornalismo classificado como popular é dirigido para as classes econômicas menos favorecidas, o "jornalismo de qualidade" deveria ser voltado somente para a elite? O diretor de Redação de O Dia afirmou que não faz "jornalismo para jornalistas", mas sim para o leitor. O jornal deve ser um produto útil. Freeland relembrou que o salto de qualidade do jornal ocorreu nos anos de 1990, na gestão de Ary Carvalho. Houve uma "injeção de qualidade" no jornal, mas com o foco no mesmo tipo de leitor. O jornalista ponderou que há espaço para política e economia nos jornais populares e citou como exemplo uma recente denúncia sobre funcionários fantasmas da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro.


(...)


Jornalismo "quase" de graça
Alexandre Freeland comentou que o fato de pagar pelo jornal estimula o leitor a cobrar qualidade. A venda em banca funciona como uma "assinatura" renovada diariamente. É um investimento que "tem que dar retorno", frisou. Freeland considera que os gratuitos, apesar da boa qualidade técnica, não "têm muita personalidade". Em São Paulo, o fenômeno não se consolidou. Para Antonio Rocha Filho, apesar de bem executados, os jornais gratuitos "não atendem ao que se propõem".
A migração dos leitores da mídia impressa para a internet foi outro tema discutido no Observatório. Octávio Guedes considera que a concorrência com a web obriga os jornais em papel a buscar sempre o melhor. O "jornalista preguiçoso" não tem mais espaço no mercado de trabalho. Com a velocidade da internet, a busca por notícias exclusivas para não repetir a informação deve ser constante. Quando um jornalista comparece a uma entrevista coletiva e chega à redação para escrever a matéria que será publicada no dia seguinte, tanto a chefia quanto os internautas já sabem as informação por meio da rede mundial. "Está cada vez mais difícil ser repórter", disse. Para Alexandre Freeland, a internet é uma ameaça à primeira vista, mas pode ser uma aliada ao obrigar o constante aperfeiçoamento. É uma importante ferramenta de diálogo com o leitor. Antonio Rocha Filho ressaltou que a busca por notícias na rede é "pura e simples", cabe ao jornal impresso uma análise mais aprofundada dos fatos.

4 de jun de 2009

Internauta rechaça pedido de ministro e diz preferir web à TV

Reportagem da FolhaOnline:

"Essa juventude tem que parar de ficar só pendurada na internet. Tem que voltar a assistir TV e ouvir rádio." Posta à prova, a declaração feita pelo ministro Hélio Costa (Comunicação) foi reprovada pelos internautas. Em enquete realizada pela Folha Online entre 20 de maio e 3 de junho, 4.293 dos 5.284 votantes (81%) disseram não sentir vontade de trocar computador por televisor.
O discurso nostálgico de Costa, 69, foi feito no dia 19 de março, na cerimônia de abertura do 25º Congresso Brasileiro da Radiodifusão, em Brasília. O congresso é organizado pela Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão). Pré-candidato ao governo de Minas Gerais pelo PMDB, Costa começou sua carreira como radialista. Também foi jornalista da TV Globo.
Em 2008, o diretor de engenharia da emissora carioca, Fernando Bittencourt, resumiu a dificuldade dos conglomerados de mídia em se adaptar às novas tecnologias: "Éramos felizes e não sabíamos", disse, em um congresso de TV digital. "Há dez, 15 anos (...) a única forma de ver televisão era pelo ar", explicou.
Nos EUA, grupos de mídia também tentam embarcar no bonde do conteúdo on-line --alguns, com sucesso. É o caso do site Hulu (www.hulu.com), que tem à frente a News Corp. (dona da Fox) e a NBC Universal e reúne séries, vídeos e filmes --vários em alta resolução-- para o público norte-americano. Contrário às previsões iniciais, provenientes do Vale do Silício, de que seria um desastre épico, o Hulu desponta como uma forte ameaça à hegemonia do YouTube."

Esse assunto acaba sendo sempre discutido em sala de aula: o surgimento de uma nova mídia ameaça as outras? Porém, nós sempre chegamos à mesma conclusão: as mídias se adaptam, e cada uma tem seu espaço. Afinal, o rádio está aí até hoje pra provar.

3 de jun de 2009

É imprescindível nova Lei de Imprensa para proteger o cidadão e a comunicação

Matéria retirada do Correio da Cidadania


No último dia 30 de abril, o STF finalizou o processo de extinção da antiga Lei de Imprensa, revogando-a definitivamente depois de ter suspendido, em fevereiro de 2008, 22 dos 77 artigos de seu texto. Assim, abriu-se um enorme leque de dúvidas a respeito da regulamentação do exercício da profissão, além de muitas interrogações a respeito dos inumeráveis processos hoje em andamento, que agora podem adentrar o terreno do ‘vazio jurídico’.

 

Para o jornalista Hamilton Octavio de Souza, chefe do departamento de jornalismo da PUC, é importante que se redija uma nova lei, com vistas a proteger a cidadania e a liberdade de acesso de todos aos meios de comunicação, ao lado da necessidade de se assegurarem instrumentos de controle da responsabilidade da informação.

 

Entrevistado pelo Correio da Cidadania, Hamilton lembra que existem demandas urgentes, como as concessões de rádio e TV e a democratização da mídia, que precisam ser garantidas para que se mude algo de efetivo na atual correlação de forças. "O único instrumento que hoje regulamenta a comunicação é a Constituição, e ela não é cumprida. O resto é faroeste", sintetiza.

 

Por fim, falando em democratizar, aponta que a Conferência Nacional de Comunicação, marcada para dezembro, poderá se transformar numa ‘farsa sob controle da mídia dominante’ caso não haja mobilização popular em torno dela.

 

Correio Cidadania: O que você pensa da revogação da Lei de Imprensa? A esta altura, é de valor mais simbólico ou prático?

 

Hamilton Octavio de Souza: Tem interferência em questões práticas, porque, embora a Lei de Imprensa seja um entulho da ditadura, regulamentava questões que ficaram sem regulação, como o direito de resposta, a questão da responsabilidade dos veículos, dos danos morais... Detalhava algo que, apesar de previsto no Código Penal, este não entra em alguns pormenores específicos que a Lei de Imprensa tratava. Assim, ela cria um vazio de legislação nesse momento.

 

O Brasil precisa de uma lei que regulamente o funcionamento da comunicação social, que seja democrática, permitindo ao cidadão que se defenda e tenha acesso aos veículos, de maneira que possa se expressar. Não faz sentido que os meios fiquem isentos de sua responsabilidade nos ataques e matérias que fazem em relação a pessoas, empresas, entidades ou movimentos sociais.

 

Portanto, a derrubada da Lei de Imprensa cria uma situação que deverá criar polêmicas sobre como fiscalizar e atuar nesta área sem lei específica. Além disso, em determinados casos, pode tanto prejudicar o cidadão como também a própria empresa de comunicação, pois dependerá da cabeça de cada juiz estabelecer o que se fazer em cada situação.

 

Existem no momento milhares de processos de danos morais em andamento, causados por matérias veiculadas pela mídia. Se não se tem mais a lei que cuida disso, muitos juízes podem optar pelo arquivamento dos processos.

 

Sendo assim, penso que o Brasil precisa de uma lei democrática, que pense na defesa do cidadão diante de algum ataque ou divulgação de informação que cause prejuízo à sua vida.

 

CC: Dessa forma, podemos imaginar que esse citado vazio jurídico poderia ser ainda mais prejudicial para setores mais fracos da sociedade e com menor poder de expressão de suas idéias.

 

HOS: Exatamente, porque as classes dominantes - políticos, autoridades, ricos em geral - têm acesso garantido aos meios de comunicação. Quem não o possui são os cidadãos comuns, o trabalhador, aquele que não tem nenhum tipo de pistolão, proteção de autoridades ou de gente rica e poderosa. É neste caso que a Lei de Imprensa era um instrumento que precisava ser revogado. Mas algo precisa ser deixado em seu lugar, construído sob a visão de defesa da cidadania, dos direitos humanos e do acesso do cidadão aos meios de comunicação.

 

CC: Seriam esses os verdadeiros pontos fundamentais a serem tratados em uma eventual nova lei de imprensa, portanto.

 

HOS: Sim, devemos caminhar para isso. É inacreditável que tanto o governo atual como os que se seguiram após o fim do regime militar – Sarney, que viveu a Constituinte, Collor, FHC, Lula – não tenham tomado a iniciativa de construir uma nova Lei de Imprensa, democrática e adequada aos direitos do cidadão de poder falar e se defender de ataques da mídia. Ninguém construiu isso e ficou o vazio.

 

Na verdade, há um medo muito grande de regulamentação na área. Há demandas para regulamentação das concessões de rádio e TV, regulamentação de distribuição da verba de publicidade oficial, regulamentação dos canais de TV paga via satélite e da própria distribuição de conteúdo pela telefonia. São todos pontos sem regulamentação.

 

Na verdade, é um caos deliberado, pois há integrantes da classe dominante, e principalmente empresários da comunicação, que têm interesse em atuar neste caos, pois levam vantagem. Sem regulamentação, fazem aquilo que lhes interessa empresarialmente.

 

CC: E quais interesses mais específicos poderiam se impor, em detrimento de discussões mais prementes, no que tange uma regulamentação da função da imprensa?

 

HOS: Temos uma situação inconstitucional na questão da radiodifusão. Isso porque a Constituição expressa, em seus artigos 220 e 224, que no Brasil não é permitido monopólio ou oligopólio nos meios de comunicação.

 

No entanto, as redes que atuam no país possuem uma quantidade enorme de veículos a elas vinculados, constituindo um quadro de oligopólio, o que é ilegal, inconstitucional. É um caso de desrespeito à Constituição.

 

Por exemplo, a questão das concessões de rádio e TV é prejudicada pela falta de uma legislação que estabeleça um critério claro sobre quais condições um veículo deve atender para obter a renovação de concessão. A concessão é dada para um período de 15 anos e, finalizado esse período, como aconteceu no ano passado, com várias emissoras renovando as suas permissões, não havia nenhum critério de avaliação. E os critérios poderiam se pautar em conferir se a emissora vem cumprindo aquilo estabelecido na Constituição. Lá, está escrito que a comunicação social tem de dar prioridade à informação, educação e cultura. E também que o sistema de comunicação deve ser público, privado e estatal.

 

Temos um desequilíbrio muito grande nisso, com um sistema privado grande, uma pequena participação estatal e a inexistência do sistema público. Outro ponto estabelecido é que as redes de rádio e TV devem ter produção local e regional, a fim de estimular e preservar a cultura regional. Isso não é respeitado pelas redes, que transmitem uma programação nacional, sem apoio e estímulo à produção cultural regional.

 

Ou seja, o único instrumento que hoje regulamenta a comunicação é a Constituição, e ela não é cumprida. O resto é faroeste. Quem tem mais poder de fogo atira como quiser. Dessa forma, estão nadando de braçada pela falta de controle dos meios. E está valendo tudo: proselitismo político, proselitismo religioso, transformar um canal em televenda de massa, um absurdo.

 

CC: E você enxerga possibilidade de que o momento possa impulsionar um debate mais profundo sobre a democratização da mídia?

 

HOS: Os setores ligados à luta pela democratização da comunicação, os movimentos sociais (que têm consciência da importância da comunicação em seus próprios processos de luta), vêm atuando no sentido de tentar colocar na agenda nacional a discussão deste tema.

 

Acontece que a grande imprensa e seus principais veículos não entram na discussão. E possuem no governo um aliado, no caso o próprio ministro das Comunicações Helio Costa, que é um representante das grandes redes. Ao invés de chamar o debate, o ministério tenta abafá-lo. E aos grandes veículos não interessa convocar o debate, para eles está tudo ótimo e assim deveria continuar.

 

CC: Qual a sua expectativa para a Conferência Nacional de Comunicação, marcada para dezembro e com apoio já declarado pelo presidente Lula?

 

HOS: Essa Conferência só tem condições de avançar para alguma proposta de democratização se houver uma grande mobilização popular. Sem essa mobilização, será uma conferência manipulada pelo Ministério das Comunicações - como, aliás, já vem fazendo, através de controles nos estados, de maneira a fazer com que a participação dos delegados da representação que culminará na conferência configure um congresso sob controle dos setores da mídia dominante. Portanto, pode se transformar numa grande farsa.

 

Só não o será se os movimentos populares e os setores que defendem a democratização fizerem grandes mobilizações pelo Brasil.

 

1 de jun de 2009

Direito à Comunicação em Debate

Na última terça-feira, 26 de maio, representantes da mídia, do governo federal e do ministério público discutiram os direitos dos cidadãos à Comunicação Social

Diversidade cultural na mídia, classificação indicativa na TV aberta e os problemas da publicidade para crianças foram alguns dos temas debatidos no seminário coordenado pela procuradora Federal dos Direitos do Cidadão, Gilda Carvalho. "Hoje inauguramos um espaço democrático, e temos um foco: contribuir para o aperfeiçoamento das instituições democráticas, dentre as quais a Comunicação tem um papel fundamental", declarou a doutora ao final do evento.

Pela manhã, foi discutido o conteúdo que deve ter a televisão. A lei diz que a programação televisiva tem a obrigação de ir além do entretenimento: educação, cultura, arte e informação são exigidas. Um dos problemas levantados foi o vencimento das concessões públicas de diversas emissoras comerciais no ano passado, que continuam funcionando sem autorização. Muitas dessas emissoras não respeitam a lei no que diz respeito a um mínimo de programação cultural e educativa.

Diversidade cultural na televisão

A discussão das concessões também esteve presente no segundo painel, à tarde. Para Diogo Moyses, do Coletivo Brasil de Comunicação Social Intervozes, "o simples fato de alguém ter que administrar os canais de informação, no caso o governo, já impõe uma restrição à liberdade de expressão. Por isso temos que garantir que eles sejam bem administrados. A hegemonia das emissoras comerciais não pode continuar. Deve haver um equilíbrio entre Comunicação pública, estatal e comercial. O mercado não garante direitos, não garante cidadania, para isso a sociedade tem que se organizar. Espero que isso aconteça na Conferência Nacional de Comunicação".

O secretário da Diversidade e Identidade Cultural do Ministério da Cultura, Américo Teixeira, apresentou dados de uma pesquisa recente do IBGE, que revela a presença de videolocadoras em 75% dos municípios brasileiros. "É fundamental entender o impacto do cinema distribuição de cultura no Brasil. A hegemonia audiovisual norte-americana transmite todos os seus valores aqui, e nós não conseguimos mostrar a diversidade cultural do nosso próprio país. Aqui dentro temos mais de 225 povos, que falam mais de 180 línguas, e ninguém os conhece. Temos que pensar diversidade e mostrá-la" explica o secretário.

Classificação Indicativa nas TVs por assinatura

Segundo o representante da Associação Brasileira de TVs por Assinatura (ABTA), o advogado Marcos Alberto Bitelli, a televisão fechada foi a mais proativa na adoção da classificação indicativa. Um dos pontos positivos, é o fato de os pais poderem controlar a programação através de uma senha, quando não querem que seus filhos vejam programas contendo sexo, violência ou consumo de drogas.

Esse controle ainda não é suficiente, na opinião do promotor Domingos Silveira, do Grupo de Trabalho de Comunicação Social da Procuradoria, " a auto-avaliação das TVs por assinatura não é suficiente. Temos que encontrar instrumentos para regulamentá-las". Para Silveira, "a TV a cabo representa um perigo a mais para a criança e o adolescente. Ela tem uma aura de qualidade, e a gente acha que tudo que está na Discovery Kids é bom, mas não é".

Publicidade e criança, uma mistura polêmica

"Antes de sermos cidadãos, somos consumidores, e a criança moderna se socializa a partir do consumo" declarou o Representante da Associação Brasileira de Anunciantes, Rafael Sampaio, "o que temos que fazer é ensiná-las como conviver com a publicidade". Na opinião da associação, qualquer restrição à publicidade seria uma violação da liberdade de expressão. Apesar de reconhecer a existência de alguns abusos, Sampaio defende a auto-regulamentação do setor, a exemplo dos Estados Unidos, onde não se veicula mais propaganda de cigarros.

A opinião do Instituto Alana, no entanto, é bem diferente: "A criança até os seis anos não sabe diferenciar conteúdo de publicidade, e quando começa a fazer a diferenciação, ainda não entende o caráter persuasivo de uma propaganda", explica Isabella Meira Henriques. "No artigo 37 do Estatuto da Criança e do Adolescente, está assegurada a integridade psíquica da criança. Ora, a publicidade para o público de até 12 anos é ilegal em sua essência" analisa a palestrante. Para o Instituto, a publicidade de produtos infantis deve ser feita apenas em horários específicos, voltada para os pais, a exemplo da TV Cultura.

O diretor do Conselho Federal de Psicologia (CFP), Ricardo Moretzsohn, também reconheceu os danos da publicidade para a criança. "O posicionamento oficial do CFP é que toda publicidade voltada ao público infantil deve ser proibida. O consumismo é um distúrbio. crianças não nascem consumidoras, isso lhes é passado. Que cidadãos queremos formar pro mundo, consumidores desesperados ou indivíduos críticos?" questiona o psicólogo.

Por Mel Bleil Gallo - Publicado no Campus Online